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agora é por lá:
Há sempre alguma janela nas paredes, ainda que pequenina: http://twitter.com/rita_apoena
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Cartas imaginárias
Querido Helano,
Hoje eu comprei sementes de girassol. Há isso de extraordinário no mundo. Quando alguém se sente só ou com saudade de outrém pode comprar sementes de girassol para vê-lo crescer. Pode até fazer uma sementeira de tulipas. Neste caso, é preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos, deixando cair uma ou duas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas, máquinas, tratores ou edifícios, deixo aos outros, cuidarem. Também elas precisam de carícias: não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado? Não vê a máquina acarinhando a outra com a lixa? Há muitas formas de cuidar. E, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se me ocupo da semente é porque escuto o seu silêncio. O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o seu grãozinho de terra.
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Cartas imaginárias
Querido Helano,
será que, às vezes, a gente vai com tanta pressa ao encontro de alguém que se esquece de se levar junto? Será que o Sol, quando é muito forte, faz a sombra chegar primeiro do que a gente? Será que é assim que tudo acaba? Ou nem mesmo começa? Acordei com uma fresta de luz brincando na cama, o sol deitando a sombra das folhas em minhas pálpebras. E era tão bonito e simples ver a luz pintando os móveis de colorido que entendi o fim de um casamento: nenhum amor floresce preso numa casa, sem contemplar, por instantes, a luz de uma tarde... Então, guardei aquela fotografia por dentro dos meus olhos para quando eu olhar você. E você, como sempre, não me responder palavras, não me escrever palavras, mas quando o sol for sumindo, me estender sorrindo o seu cachecol xadrez.
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Cartas imaginárias
Querido Helano,
Hoje eu andei as ruas todas em silêncio, tentando fazer silêncio pelo lado de fora. Quando não quero que os meus pensamentos acordem as crianças do mundo, prefiro escrever uma carta sem muito ruído. Antes disso, chamei a minha avó. A minha avó só queria um abraço. E avós, na minha história, são pessoas que esperam o dia todo por um abraço. E abraços, na minha história, são técnicas de estourar, com o corpo, um balão cheio de vazios. Ah, Helano, vim pelas ruas lhe escrevendo cartas. Dois rapazes riram das roupas de um homem. Quis escrever cartas a esse homem também, mas dois passos eram ainda mais longe que Paris! Queria dizer a ele que não se sentisse desconfortável no mundo, tudo bem a sua blusa ser assim. O homem baixou a cabeça como se o carteiro entre nossos passos tivesse errado os braços e o homem, já tão longe de mim, tivesse atravessado a rua. Quis dizer que a blusa roxa e brilhante brincava de voar no varal, acenando alegre aos transeuntes. Quis dizer isso a ele, quis muito, mas não disse, é claro. Há tantas coisas que não dizemos a um desconhecido... Talvez, ainda mais, muito mais, aos desconhecidos de Paris! Por isso lhe escrevo, para que não se esqueça de nosso mundo quentinho. Por hoje, fiquei com o começo desta carta e um abraço em minha avó. Por hoje, querido Helano, por hoje, foi só.
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Metáforas
sobre o tempo
Procuro uma câmera que fotografe o iminente, e a memória revele as imagens, pendurando-as na linha do tempo, para secar.
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Metáforas
da partida
No início da longa estrada, uma placa de trânsito pedindo aos transeuntes: favor reduzir a estatura à medida em que se aproximar do horizonte.
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cruzamento
Duas pessoas anônimas, com relógio e sem relógio, cruzaram-se na grande avenida cheia de prédios. Perguntaram-se as horas e foram para suas casas - com muitas palavras a serem ditas enforcadas em gravatas tão lisas e sóbrias que estampadas de solidão. Mas não foram só elas que se esqueceram. Delas nós também nos esqueceremos porque nenhuma - a de relógio ou a sem relógio - faz parte dessa história. Apenas passaram pela cena, como as milhares de pessoas que atravessam o nosso caminho e que, nem por isso, fazem parte da nossa vida.
Não iremos mais vê-las em primeiro plano. Estarão em algum lugar da cidade, em prédios que, por economia de tempo e de espaço, já adormecem em pé, minúsculos ao redor do Sol e gigantescos ao lado do formigueiro. Um formigueiro que passa, que gira, que pressa. Pessoas como frescas pinceladas. Não distinguimos a cor do cabelo, o brilho dos olhos, a face disforme. Estamos tontos de tanto rodar e rodar. Mas abrupto tudo
para
e enxergamos um rosto. Apenas um rosto através da lente. Um rosto nitidamente enfiado nas páginas de um livro. O único rosto que não se desmanchou na tinta que todos os outros formaram, na força centrípeta do nosso giro panorâmico. Por alguma razão estranha - ou seria coincidência? - aquela pessoa também nos viu e correu os olhos pela página. Aquela que poderia fechar o livro a qualquer momento. Aquela que poderia joga-lo sobre a estante e espremê-lo entre os clássicos, humilhando-o por toda a sua constrangedora imaturidade. Aquela que poderia deixar o livro ali, esquecido e amassado, na recém prosa de suportar gigantes. (...)
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sobre a noite
não é difícil congelar a cena, quando podemos cruzar o cenário e costurar uma estrela: pequeno botão que fecha a noite antes do dia se abrir.
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querida Teresinha,
Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nas pessoas ao nosso redor? E ir deslizando pelos pequenos detalhes, na beleza não manifesta e, ao mesmo tempo, ofuscante? Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nos olhos do outro, sem qualquer pressa, sem procurar ali dentro o próprio reflexo? Foi esses dias, Teresinha, eu aninhei as mãos de minha avó por dentro das minhas, encostando o meu rosto em seus dedos tão frios, como se ela tivesse acabado de nascer em seu corpinho já envergado pelo tempo e marcado pelos dias. Naquele segundo, eu entendi que nada era mais urgente, nem mais importante, do que ouvir a minha avó reaprendendo a falar... e que eu sequer começaria a ver alguém - além de mim mesma - se não pudesse enxergar as pessoas para as quais olhei a vida inteira.
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a viagem de tartaruga
"Dessa vez, eu fui um pouco mais longe!" Essa é a história de uma tartaruga que botou uma mochila nas costas e resolveu conhecer o mundo.

Como podem notar, a mochila era bem maior do que a sua cabeça. Dizem alguns, para disfarçar a cabeça-de-mamão-macho. Outros, que era uma mochila-barraca, sob a qual se esconderia nos dias chuvosos. Outros, que era uma borboleta sem asas, viajando num casulo-trailler. Seja lá como for, era uma tartaruga com pressa de viver.

"Pressa de viver?" - perguntou a lesma que passava por ali. "Como assim?" A tartaruga escondeu-se em sua mochila-barraca e não respondeu. "Mas você vai aonde com uma mochila desse tamanho?" - insistiu a lesma. "Para o mar" - disse a tartaruga. "Para o mar?!? Você está louca?!? Lá tem sal! Lá tem muito sal!" - respondeu a lesma.
Então, a tartaruga mudou de direção. Não porque daquele lado o mar era salgado, mas para terminar o assunto com a lesma. E terminou o assunto. Não porque não gostava da lesma, mas porque precisava estar sempre só. Um certo dia, porém, encontrou uma tartaruga chamada Boné.
 Boné era um cara estranho. Ele não se escondeu quando eles se encontraram. E não perguntou aonde ela ia com aquela mochila. Ele também tinha uma, mas não parecia ser de viagem. Nas primeiras horas, a tartaruga continuou escondida.
 
Mas, como Boné não se mexia, ela colocou a cabeça para fora e espiou. Nada. Boné continuava imóvel. A tartaruga também. Afinal, talvez ele fosse o Arrancador de Cabeçaas de Tartarugas. Uf.. Ela sentiu um calafrio ao se lembrar da vez em que foi pega por ele. Embora não tenha morrido, ele arrancou muitos pedaços. Depois disso, a tartaruga sempre se escondia quando alguém tentava se aproximar. Mas Boné não se aproximava e a tartaruga, aos poucos, tentou sair da barraca.
"Ei" - cutucou. "Você está bem?" - Boné não respondeu. E também não saiu do lugar. A tartaruga andou bem devagar ao redor dele. Quando tocou a sua mochila, descobriu um pergaminho branco, com uma história que ela jamais pôde esquecer.

Era uma história dura, tinha ferro, tinha mancha, tinha perigo. Vai ver tinha até Arrancadores de Cabeça. Mas era uma história doce, apesar de tudo. Uma história que dizia 100% algodão. 100% algodão... 100% algodão... a tartaruga ficou repetindo, com o olhar perdido. Que bonito era aquilo.
Passaram-se muitas semanas sem que a tartaruga seguisse viagem. Todos os dias, ela desenrolava o pergaminho e lia a história de novo. E de novo. E de novo. Era como viajar nas grutas mais fundas sem se cansar. Trazia alimentos e água para Boné, mas ele não se mexia. 
Um dia, um vento muito forte lançou Boné para longe. E ela, que nunca tinha visto tartaruga alguma voar, pensou que era assim que Boné terminava o assunto. E foi embora. No caminho, pensava nele. E se estivesse se debatendo naquela posição? Nenhuma tartaruga gostava de ficar olhando para o teto. Voltou.

Quando chegou perto, descobriu que dentro de Boné havia um imenso vazio. Um buraco. "Dói?" - a tartaruga perguntou. Boné não respondeu. Também, como poderia? E a tartaruga andava para lá... E andava para cá...
sem saber o que fazer. E, mesmo sem saber se era o correto, resolveu levá-lo junto.

Foi quando chegou o Arrancador de Cabeças em passos ligeiros! A tartaruga tentou correr o mais depressa que pôde, mas o Arrancador veio com tudo, olhou daqui, olhou dali, enfiou o Boné na própria cabeça e saiu. A tartaruga foi atrás, dizendo:

"Fuja, Boné! Não deixe que eles te levem! Não deixe! Fuja, fuja daí!" Mas Boné não disse nada. O vazio que tinha por dentro foi todo tomado pela cabeça do Arrancador. E a tartaruga andava para lá... E andava para cá... sem saber o que fazer. Então, elaborou um plano... (continua)
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 Foto: Rita Apoena
Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.
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Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas.
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