Carrinho

Não sei o que fazer. Um deles me olha, por entre os destroços e estende a mão para mim. Duas lágrimas descem, cortando a minha face em tiras, e despencam no chão. De nada servem. De nada me valem. O outro me olha com tanta esperança. Como se eu pudesse recolher aquele sangue e, nas nuvens mais alvas, desenhar um cata-vento, desenhar um coração. E eu não sei o que fazer. Eles me pedem com os olhos - e com a ponta dos dedos - que eu retroceda o tempo. Estanque o último sangue que puderam guardar na conchinha da mão. Brincadeira de passa-anel. Mas eu sou só um menino e não sei o que fazer quando os carrinhos de brinquedo batem de verdade. Quando o fim entra pelo ferimento, e a vida se esvai pelo asfalto,


                  





Obrigada!

Amigos, muito obrigada pelos comentários! Porque não posso responder, não pensem que não me importo! Bah, eu fico tri faceira, com vontade de abraçar forte cada um de vocês!


                  





Apelo

(Dalton Trevisan)

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.



Resposta

(Rita Apoena)

As meias, senhor, as meias eu vou ensinar como se costuram.
Primeiro, é preciso alinhavar o tempo. Achar a ponta mais longe e desfazer os embaraços, partindo do fim para o começo. E eu já estava no ônibus quando hesitei, quando desci no primeiro ponto que a agulha desfez entre nós. Subi as escadas em caracol, tentando cerzir a nossa fazenda, já estampada de flores tão murchas e, por mais um instante, voltei para casa, senhor. Olhei a casa, senhor. Uma camisa jogada no chão, com os braços abertos, à espera de um abraço. O meu apelo em cada canto do quarto. O batom, o vestido. A meia encolhida, sem par. A rede pendurando, solitária, um sorriso na varanda. À espera de um outro sorriso, talvez. O sorriso, na borda da xícara, o senhor esqueceu. A alça sem os laços do seu dedo. Minhas mãos na cintura. À espera dos seus braços, senhor. Nós dois rodopiando pela sala, em voltas e voltas que a cera apagou. E que devem ser as voltas dessa agulha. Da agulha que lhe ensina a costurar um tecido ferido, senhor.

Depois, é preciso desatar as linhas. As linhas que o senhor me escreveu nessa carta. E me trouxe a essa casa, um mês depois. Então, era isso, senhor? O leite coalhado. As teias de aranha costurando as fendas no teto. O saca-rolha perdido. A meia furada. A camisa sem botão... O botão sem a casa. A casa. A casa. A casa? O prato na parede. O jarro na parede. A estátua na parede. O relógio tremendo no chão. O ponteiro no cinco. O ponteiro no cinco. O ponteiro no cinco. Uma camisa com os braços rasgados. O retrato em duas partes. Um grito alto. As mãos no colo, em abandono. Ouve agora o meu apelo, senhor?    


                  





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No princípio, era a dor de barriga.

Minha história com as palavras é trágica. Começou (e quase terminou) com uma dor de barriga. Uma forte persistente e obstinada dor de barriga. Não vá supondo, o leitor, que comecei a ler no vaso sanitário. Não, não é isso. Naquela época, para desespero dos meus tios, nem o peniquinho eu sabia usar e andava amarrada em fraldas, pulando de um colo ao outro, chorando pelas madrugadas.

Tentaram de tudo: chás, simpatias, massagens na barriguinha. Tentaram até a ginástica das perninhas - estende, flexiona, estende, flexiona - para ver se a graciosa criança liberava um gracioso pum. Mas nada adiantava àquela criança recém-nascida. A questão é que os meus intestinos - e talvez um pouco o meu espírito - demoraram a se ajustar nesse mundo. O remédio veio nos livros...

Uma de minhas tias - leitora voraz e exímia contadora de histórias - percebeu que as palavras aliviavam a minha dor e a choradeira se intercalava com momentos de atenção. Decerto, quando a história era boa, e mesma fazia silêncio. Quando era chata, eu dormia. E quando Édipo furava os olhos, aí é que eu berrava pra valer!

Os anos passaram, a dor de barriga também, mas eu continuava puxando a minha tia pela saia: "Conta mais uma, conta?" Ah, pois não pensem que aquela senhora tão bondosa - até hoje ela se veste de palhaço e conta histórias em hospitais - fosse desprovida de pequenas maldades. Talvez por vingança - tantas noites mal dormidas - ela passou a não me contar o final. Quando os meus olhos já estavam arregalados e minhas sobrancelhas erguidas, ela simplesmente parava. Nada. Nem mais uma frase. Nem se e implorasse de joelhos, titia do meu coração. E ria, ai como ria... Com isso, quem não dormia era eu, imaginando cento e sessenta finais.

O jeito doi pegar uma cadeira e tirar uma cartilha velha do armário. Desenho de sapo, sa-se-si-so-su-são. Desenho de pato, pa-pe-pi-po-pu-pão... e assim por diante. Um dia, ao ouvir a sirene de uma ambulância, mostrei-lhe um papel: "ÃBULÃSIA" e saí triunfante, com minha cartilha embaixo do braço.

Depois disso, passei a ler e a escrever tudo o que eu queria, sem intermediários. Até histórias e pequenos poemas. O primeiro, escrevi quando um pássaro caiu do telhado e eu lhe prescrevi um cardápiobem nutritivo: arroz, feijão, fígado, banana, saladinha... tudo para que ele crescesse forte e saudável! Dias depois, escrevi em sua lápide:

O passarinho já não voa.
Sua vida não é boa.
Sua vida é tão ruim.
Porque ele só come pudim.

Pobre passarinho com dor de barriga.


                  





Anúncio para solitários


Foto: Rita Apoena

Procura-se um amigo sozinho
de andar discreto e gesto silencioso.
Procura-se desesperadamente um amigo
que saiba se aproximar
de um passarinho.


                  





Tempo


Foto: Rita Apoena

Parece que foi ontem, eu correndo entre as árvores tão cheias de frutos. Eu peguei um dos frutos, mordi. O tempo pegou uma das flores, caiu. Parece que foi ontem, eu deitada na grama para olhar as nuvens e meus dedos descobrindo na terra a flor que eu nunca poderia salvar. Se, ao menos, ela aceitasse o sol e a terra que eu tinha. Se, ao menos, não desistisse da primavera, quando o inverno chegasse primeiro, pousando as suas mãos sobre ela... Parece que foi hoje, os transeuntes com pressa, trazendo os caminhos do futuro para baixo dos pés. E eu entre os meus pés distraídos, descalços, colhendo do tempo, daquela antiga praça, uma erradia flor.


                  





Autobiografia autorizada

(Para Mell, que gostou)

Dessa vez, a lâmpada explodiu e eu saí do quarto gritando. Minha avó é boazinha, mas acha que estudar grego é coisa de gente moca. Eu não sei o que é gente moca. E nem o que as lâmpadas fluorescentes têm contra mim. Meu apelido de infância era Cabeça de Mamão Macho. Você acha que isso tem a ver? Por favor, não me esconda! Eu acho que a música do Zorba, o grego, começa devagar, mas depois acelera muito! Eu tenho um gato que se chama Gato de Oliveira, mas o apelido mesmo é Gatildo. Ninguém pode vestir uma blusinha nele que os gatos da rua já começam a tirar sarro: "Aê, paspalho, tira isso daí, bestão!" Definitivamente, eu não gosto de carne e de pensar que o boizinho tinha uma família e era apaixonado por uma vaca que sonhava em viver com ele para sempre, mas não foi possível porque, agora, um pedaço da sua bunda está na borda direita do meu prato. Basicamente, é isso.




                  





Sugestões para presente


Foto: Rita Apoena

Amor. Bolinhas de sabão. O som de copos com água. O som das gotas no chão. Um sorriso tímido. A música por trás dos ruídos. Um coração encostado no outro. Um ou dois para sempres. Um avião nas mãos de um menino. Um barquinho de papel. Uma pipa atravessando as nuvens. Uma sementeira de tulipas. Um mingauzinho de aveia. Um par de meias listradas. Dois ou três cata-ventos. Uma palavra inventada.


                  





Guilherme


Foto: Rita Apoena

"Eu senti bem. Eu senti muito bem quando caiu meu dente. Mas tava sangrando o meu dente. Aí, né. Mas eu não chorei. Eu já tava preparado. Meu amigo Léo já tava banguelo. Eu sabia que ia acontecer. Aí falei pra minha mãe tirar esse dente, depois esse, esse. Aí, né. Aí, eu fiquei assim, banguelinho sem dente."


                  





Dona Maria Helena



"Ô Ritinha, mas foi mesmo? Você achou o seu amor na internet, foi? Será que você não arrumava um namoradinho pra mim, também? Você diz lá que eu tenho 72 anos, morena, olhos verdes, sou pobre e procuro um homem da minha idade para ser feliz. Eu tenho paciência com ele. Ele tem paciência comigo. Nós dois juntos vamos alugar uma casinha e viver... juntinhos. Um pouquinho que ele ganha, um pouquinho que eu ganho, a gente vai passear, viajar, vamos pra tudo lugar. Só isso, tá ótimo."


                  





Blognovela: o Casamento de D. Lulu


Foto: Rita Apoena

Naquela época, era diferente. Dona Lulu quem fazia a corte. Escrevia cartas, mandava flores... mas Seu Carlinhos permanecia desconfiado. Disse que só aceitaria o namoro se ela pedisse a sua mão para os pais. Dona Lulu aceitou, mas avisou que não pensava em se casar... Seu Carlinhos ficou indignado! Disse que era um homem direito, ora essa. Por fim, chegaram a um acordo quando ele aceitou ser o dono-de-casa. Enquanto ele plantasse e cultivasse as mandiocas, ela iria ao rio pescar ou à caça dos animais para o almoço - eles não eram vegetarianos. (Depois, quando ela chegasse exausta e desmaiasse no sofá, ouviria toda sorte de reclamação. Que já não o beijava com tanta paixão, que não se preocupava mais com as preliminares...) Dona Lulu pressentiu tudo isso num segundo, mas gostava tanto de Seu Carlinhos que decidiu seguir adiante.


Foto: Rita Apoena

Ao chegar, o pai de Seu Carlinhos foi logo dizendo que Dona Lulu tinha feito uma ótima escolha! O filho era muito prendado: sabia cozinhar, lavar, passar, costurar, arrumar a casa e cuidar do jardim. Além disso, ele já tinha o enxoval completo, desde mocinho. Disse que o filho tinha jeito com as crianças e... ainda era virgem. Dona Lulu explicou: "Sou uma mulher moderna, não faço questão que o homem seja virgem para se casar comigo." E o pai balançou a cabeça: "Verdade! Mais importante é Carlinhos ser prendado porque vocês mulheres saem para trabalhar fora e, ao chegar, querem encontrar a comida feita, o marido cheirosinho, com uma cueca de renda, né?" Dona Lulu coçou a cabeça. O pai de Seu Carlinhos era meio estranho, mas ela gostava tanto do moço que decidiu seguir adiante.


Foto: Rita Apoena

O problema foi a mãe do Seu Carlinhos. Chegou à casa nervosa, batendo na mesa: "Bem, cadê a janta? Ainda não fez? Mas que lubrificação!". O marido tentou acalmá-la: "Ah, não fale palavrão na frente da visita, o jantar está quase pronto..." A mãe olhou os cantos, farejando: "Visita? Que visita?". Quando Lulu viu a sogra, escondeu-se atrás da cortina! "O que é isso?", perguntou a mãe. "É a moça que veio pedir a mão do nosso Carlinhos...", respondeu o pai com os olhos marejados. "Está louco?! Essa fêmea quer levar o nosso filho?! Ela vai se casar é com a minha espingarda, isso sim!" Ixi! Dona Lulu fugiu como pôde, naquela época, as mães eram muito bravas. O jeito era um só: fugir com o Seu Carlinhos! Então, foi correndo buscá-lo, no cabeleireiro.


Foto: Rita Apoena

Dona Lulu entrou no cabeleireiro e ficou espantada. Todos os homens falavam mal de suas mulheres. Alguns faziam a unha. Outros depilavam a barba com cera. E todos usavam máscaras de pepino. Depois, entravam em capacetes gigantes, de onde saía... vento! "Será que são cabeças-de-vento?" - ela pensou - "Será que são cabines de comunicação extraterrestre? Será que entram ali, com a cara verde, para falar com marcianos? Será que os homens estão planejando dominar o mundo?"

De repente, alguém gritou: "Socorro! O que você fez com meu cabelinho? Você cortou três dedos! Que tragédia!". Dona Lulu, achando estranho, comentou: "Nossa, os homens dão tanta importância aos cabelos!" E o moço ao lado respondeu: "Não ligue pra ele! Sansão é assim mesmo! Todo mês é esse estresse na hora de aparar as pontas!". Lulu continuou: "Bom... só estou aqui para falar com Carlinhos, você sabe onde posso encontrá-lo?" Antes que ele pudesse responder, uma cabine esfumaçada pousou no chão. "Será Deus Marte?" - pensou Dona Lulu - "Será a mãe de Carlinhos com uma espingarda? Ou será o Rei dos Baixinhos, em mais um programa Sonho dos Apaixonados?"


Foto: Rita Apoena

Pois é, amiguinhos. Por incrível que pareça era mesmo o Rei dos Baixinhos, do alto dos seus 15 cm, em mais um programa Sonho dos Apaixonados. Bah...! Dona Lulu não entendia por que tanta confusão. Só queria ficar em paz com Seu Carlinhos, sozinhos, mas antes que pudesse ir embora, o apresentador começou:

Rei dos Baixinhos: Boa tarde, telespectadores! Estamos aqui, nesse programa maravilhoso, para contar a todo o Brasil a linda história de amor entre Lulu e Carlinhos! Um amor que venceu todas as barreiras para seguir adiante e triunfar! Mas, antes de começarmos, vamos chamar os nossos patrocinadores!

Patrocinadores: Se os pêlos do seu peito estão embaraçados, se o seu bigode já não é mais o mesmo, cheio de pontas duplas e danificadas, use o creme de silicone Victor Kaf. O nosso creme reúne ingredientes altamente selecionados! Victor Kaf, a alegria dos seus pelinhos! É com você, Rei dos Baixinhos!


Foto: Rita Apoena

Rei dos Baixinhos: Chegamos ao momento mais esperado: a prova da fidelidade! Colocamos Lulu na cabine acusticamente isolada e tudo que ela precisa fazer é responder SIM! ou NÃO! quando a luz acender! Lulu querida, você tem em seu coração a pessoa mais linda do mundo, o grande amor da sua vida: Seu Carlinhos! O que o Brasil inteiro quer saber é: você quer trocar o seu amado pelo Wando, Dona Lulu? (Em meio ao mais absoluto silêncio, a luz acendeu. Como Lulu era uma pessoa muito positiva, entre o sim e o não, é óbvio que ela escolheu o sim.

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!! (A platéia reagiu aos gritos. Homens enfraqueciam as bandeiras de apoio e levavam a mão à boca, decepcionados com a conduta amorosa de Lulu).

Rei dos Baixinhos: Dona Lulu! Como pôde trocar o seu grande amor assim, tão facilmente? (Dona Lulu, sem entender nada, só sorria). Lulu querida, vamos para a penúltima etapa da prova. Não nos decepcione! Agora, você tem em seu placar o Wando. O que o Brasil inteiro quer saber é: você quer trocar o Wando pelo Fofão e mais cinquenta caixas de chocolates Diziolli? Outra vez, no silêncio da cabine, a luz acendeu. Dona Lulu ficou pensando entre o sim e o não. Como sempre teve dificuldades para dizer não, escolheu o sim:

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!!

Rei dos Baixinhos: Dona Lulu! Mas o que é isso? Você veio aqui para casar ou tirar uma casquinha dos participantes? Vamos tentar de novo! Não desperdice essa chance! Você quer trocar o Fofão por Seu Carlinhos, o grande amor da sua vida?

A luz da cabine acendeu.

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!!

Rei dos Baixinhos: Ela disse sim! Atenção, telespectadores. Eis o momento mais importante da noite. Se Dona Lulu escolher Seu Carlinhos, eles saem daqui com as alianças de casamento e uma casa novinha em folha. Mas... se ela não escolher Seu Carlinhos, segundo os contratos do jogo, terá de se casar com o homem no placar e não terá nenhuma ajuda do programa Sonho dos Apaixonados, pois somos a favor da mais absoluta fidelidade! Atenção, Dona Lulu! Você quer trocar o grande amor da sua vida por Jece Valadão, líder na luta pelos direitos masculinos?

Dessa vez, Dona Lulu teve um certo pressentimento, como se o seu coração estivesse avisando alguma coisa. Uma espécie de intuição masculina. Por isso, apesar do otimismo, disse não:

Dona Lulu: - Nããããããããããããããããããooooooo!!!

(Falha nos microfones da cabine).

Rei dos Baixinhos: Eu sei que é uma decisão muito difícil. Afinal, Jece Valadão é uma personalidade e tanto. Mas você precisa decidir, garota! Vamos lá, o Brasil quer ouvir sua resposta! Dona Lulu: - Nããããããããããããããããããooooooo!!!

(Falha nos microfones da cabine).

Rei dos Baixinhos: Tudo bem, vamos deixar Dona Lulu pensar um pouco mais. Parece que ela está um pouco indecisa. Para quem não sabe, Jece Valadão ficou conhecido nos anos 60 por ter queimado as cuecas em praça pública. "Abaixo às cuecas, deixe o seu amigo soltinho". A campanha teria alcançado grande sucesso se, ao queimar a própria cueca, o fogo não tivesse queimado as partes impróprias e...

O microfone do Rei dos Baixinhos começou a pegar fogo!

Rei dos Baixinhos: Socorro! Deu curto no microfone! Ele está pegando fogo! Socorro! Socorro! Alguém me ajude! Corta! Corta! Corta! Chamem nossos patrocinadores!

Patrocinadores: Claro, Rei dos Baixinhos! Se os seus pêlos estão embaraçados, queimados ou esturricados, use o creme de silicone Victor Kaf. O nosso creme reúne ingredientes altamente selecionados e, se usado todas as noites, fará com que os seus pêlos estejam sempre macios e perfumados! Creme de Silicone Victor Kaf: a alegria dos seus pelinhos!

(continua)


                  





A menina e o arco-íris


Foto: Rita Apoena

Todo dia, a menina corria o quintal, procurando um arco-íris. Corria olhando para o alto, tropeçava e caía. Toda vez que se machucava, vinha chorando uma cor. Um dia, chorou o anil até esvaziá-lo dos olhos. Depois, chorou laranja, chorou vermelho e azul. Chorou verde. Violeta. Amarelo e até transparente! Chorou todas as cores que tinha, todas as cores de dentro. Então, abriu os olhos e nem o arco-íris, ela viu. Não viu flores e borboletas. Não viu árvores e passarinhos. Pensando que era ainda noite, deitou-se na cama e dormiu. Pensando que era tudo escuro, nem levantar-se ela quis! Ficou dormindo cinzenta, por dias e noites sem fim... Foi quando um sonho, tão colorido, derramou-se dentro dela! Tingiu o travesseiro e a fronha, o lençol e o pijaminha. Tingiu a meia e o quarto. Tingiu as casas e os ninhos! A menina abriu a janela e viu que hoje não tinha arco-íris. Mas tinha o desenho das nuvens. Tinha as flores e um passarinho.


                  





O amor nos pequenos gestos
Dona Luíza II


Fotos: Rita Apoena

"Você sabe, o Brasil é novo perante o estrangeiro. Daí vieram um bocado das gentes, uns nadando, outros num pé de tábua - aquelas tábuas que parecem um naviozinho, não afundam. Foi aumentando a população, eu acho assim. Eu não gosto de certas coisas, vieram do estrangeiro de navio com os escravos. Como que traziam os escravos! Naquele porão, um por cima do outro, como... como uma coisa que não fossem gente! Os escravos faziam cocô, xixi, tudo ali entre eles, saíam tudo sujos aqueles rapazes lindos, morenos. Como que um povo que começa assim, Ritinha, pode ter respeito por si? A Bahia foi o primeiro lugar do Brasil, a Bahia tem muito valor, mas o povo vem de lá sem saber do valor que tem..."


                  





Jornal das Pequenas Coisas
Horário de funcionamento

Os poetas não abrem
aos domingos e feriados.


                  





Jornal das Pequenas Coisas
O Algodão-Doce


Ilustração de Carlos Evangelista, querido, querido, querido!

Quando eu era pequenina e espiava o mundo pelas grades do portão, via sempre um véinho passando, gritando: Ói algodão! Um dia, resolvi sair e pegar a fila das crianças. Fiquei esperando o véinho transformar açúcar em nuvens, açúcar em mágica, em pedaços de carinho. Quando ficou pronto, mal podia acreditar! Peguei o algodão nos dedos e perna-pra-te-catar!

Lá de longe, o véinho gritou: Ô Ritinha, mas e o dinheeeeeeiro, Ritinha? Eu virei e respondi: Não, vô! Num picisa de dinheiro, não! Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão! O véinho deu risada e logo respondeu: É mesmo, né Ritinha? Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão! :)


                  





Metáforas
Acerca del Viaje


Ilustração de Pablo Gamba, querido, querido, querido! 

Donde quiera que el ómnibus me lleve
el sol acompaña mi rostro a través de la ventana
como un barrilete!
amarrado por la esperanza.


                  





Jornal das Pequenas Coisas
O caramujo e a poça d'água

Ele achava bem difícil, era quase saltar de um abismo! Chegava pertinho da poça, mas voltava pro esconderijo. Seus amigos não entendiam por que ele se sentia assim. Nunca viram caramujo com esse medo d'água fria! Mas o caramujo temia e toda hora imaginava que de dentro da poça pulavam jacarés e crocodilos! Os colegas diziam: "Ô Mujinho, o qué qué isso! Óia lá se tem cabimento um jacaré morar ali dentro?! E ainda ficar pulando?! Será uma Cuca com Saci-Pererê?" E foi tanta gargalhada que Mujinho decidiu: ele ia atravessar a água sem esse mas-nem-porquê. E quando abriu os olhinhos, esperando o crocodilo, viu que a água era doce e o caminho, tranquilo. Não tinha bicho e nem monstro! Tinha só um caramujinho, refletido lá dentro...


                  





Metáforas
Sobre o aborto

E naquele dia,
o seu filho nasceu para dentro.
E quanto mais o tempo passava,
mais o menino crescia:
esbarrando no seu coração.


                  





Metáforas
Sobre o sono

O sono chega
quando a noite tenta
pendurar-se em minhas pálpebras
amarrando estrelas
- uma a uma -
em cada cílio.


                  





Metáforas
Sobre as conchas da mão

Toma o amor guardado entre as conchas da minha mão. Dentro delas ouvi as ondas quebrando-se em pedras e o espetáculo de um pequeno musgo nascido à beira de um raio de sol. Dentro delas, ouvi a terra aninhando sementes e plantas entrelaçando a ponta de suas raízes. Finas raízes tentando sustentar o mundo sob as placas de cimento. As placas de cimento, de onde germinam as casas e crescem as pessoas, entrelaçando a ponta de seus braços e o mais fundo de seus corpos pela noite escura. Dentro delas, ouvi o mundo inteiro tentando ser par... e ouvi a ponta de tuas asas tocando minhas costas nuas, teu instrumento de cordas e suspiros profundos.


                  





Metáforas
Sobre o arrepio

O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros:
soerguer uma flor.


                  





Metáforas
Sobre os poetas

O mágico nunca conta os seus segredos.
O poeta nunca explica uma entrelinha.


                  






Foto: Rita Apoena

Hoje, a minha avó dormiu para sempre.
Dorminhoca.


                  





O amor nos pequenos gestos
Dona Epifânia IV


Foto: Rita Apoena

"Mas ela era assim. Tinha um fio dela, que era bandido e andava mais Lampião. Apois ele chegava, quebrava os dente dos cavalo, batia tudo nos coitado que ia buscar leite, furava os cavalo de punhal... Aí, quando foi num dia, ela tava deitada, levantou-se e disse: 'Me levanta aqui?'. Aí, levantemo ela pra mor de sentá. Ela disse: 'Venceslau tá correndo perigo.' Falei: 'Ele tá na casa dele, Mãinha, não tem ninguém lá'. E ela: 'Mas ele tá correndo perigo. Eu sei. Me levanta aqui que eu vou lá na  casa dele.' Aí, quando chegou lá, a mulher dele disse: 'Tá tudo bem, nós vai tudo dormir!'  Apois ela disse: 'vou dormir aqui tombém. Me chamaram aqui, eu sei! Eu sei que Venceslau tá preciso de mim!'  Quando foi de manhã cedinho, ela levantou-se e disse: 'Deixe eu ir na frente.' Pois chegou no muro e viu. O pessoal tudo sentado de arma, mirando pra ela, esperando Venceslau, que fazia muita desgraça mais Lampião. Ela: 'Mas gente, pare!' Era tiro pra tudo lado, como não saiu uma bala nela? Nem em Venceslau? Ela: 'Gente, pare! Vocês não vão conseguir.' Mas tudo o que ela falava era incrívi. Apois, eles pararam. Ela disse: 'Pode ser outro dia, mas hoje não.' Daí, ela foi lá porque sabia que ia acontecer alguma coisa mais ele. Ela sabia tudo, igual a minha avó. Mas minha avó não ensinava pra tudos os fio, só pra minha mãe, porque sabia que ela não ia fazer mal a ninguém. Você acha? Se eu tivesse um poder daquele, mandava matar o desgraçado. Por isso, minha avó dizia que a Mãe ela ensinava, mas aos outro nium. Pois o que ela sabia era pu bem e pu mal. E ela só queria o bem dos outo, por mais ruim que era, não queria o mal..."


                  





Metáforas
Segredos

Meu vestido é cheio de segredos.
A cada botão que você abre,
sinto uma rosa desabrochar.


                  





Dicionário educado IV

Quando alguém olha para você e estende aquele dedo do meio, ele está querendo dizer: "Escuta aqui, você não é mindinho, não é o fura-bolo e, muito menos, o cata-piolho! Você é o maior de todos, amigão!!! Você é o maior de todos!!!"


                  





Instruções para se apaixonar

Encha o peito com mais de trezentos suspiros,
quando estiver bem levinho,
solte as amarras
e flutue.


                  





Dicionário educado III

Mas quando as pessoas dizem: "Vá tomar banho!" pode ser que estejam dizendo só isso mesmo, principalmente, se faz muito tempo que você não vê um sabonete.


                  





Dicionário educado II

Quando as pessoas dizem: "Ah, vá te catar!" elas querem dizer: "Caro amigo, espero que você entre num grande processo de auto-conhecimento, uma grande jornada em busca de si mesmo e, ao final de tudo, possa achar o fio da meada e se encontrar!"


                  





O amor nos pequenos gestos
Dona Epifânia III


Foto: Rita Apoena

"Quando foi num dia, só tinha a comida da tarde, não tinha outra coisa, mais nada. Aí de tardezinha chegou um pessoal do Ceará, eles enchia um comboio de criança, pra mor de ir para outro lugar porque não tinha o que de comer. Aí, disseram: 'Ói dona, meus fio tá tudo morrendo de fome, não tem um bocado pra dar?' Minha mãe: 'Eu tenho, claro!'. E nós tudo olhando. Ela pegou tudinho numa cuia, rapou tudo e deu a eles. Aí eu virei pra ela: 'Mãezinha, e nós? O que diacho nós vamo cumê de noite? A senhora deu tudo a eles! Nós não tem mais nada!' Ela falou: 'Deus me deu dó a dar a quem não tem. Não vai me deixar faltar'. Então, foi de noitinha já, chegou uns comandante, vinha de Sergipe, Jeremoabo, tudo. Vinha aquele comboio. Uns vinha com milho, feijão, outro com arroz, rapadura, carne seca, café, tudo. Vinha uns doze animal, tudo carregado. E eles tudo co´a roupa suja. Tempo de chuva. Aí eles chegaram e disseram: 'Ô dona, será que a senhora não dava o rancho aqui, uns dois ou três dias, pra senhora fazer umas comidinha pra gente, lavá nossa roupa, nós paga a senhora.' Aí tiraram carne, farinha, feijão, mandaram fazê. Menina, era uns arribe assim, tudo lotado de comida. Pra eles e pra gente. Aí nos comemo. Aí, ela falou, no meio daquelas panelas gostosa de comida: 'Oi fia, num falei? Num falei que a gente num ia dormir com fome? Você deve aprender isso, minha fia, a gente não pode deixar ninguém com fome, a gente deve de repartir nem que seja um grão de arroz, que você dê de bom coração...' "


                  





Yolk's e a Menina Invisível


Ilustração: Jovan de Melo

Eu não tenho cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. Eu sou só uma menina invisível, deitada na grama invisível que a moça que não sabia desenhar, não desenhou. Aquele é o menino que eu não lhe falei. Ele sempre está preso num único instante; o instante em que o moço que sabia desenhar, o desenhou.

O balão que subia as nuvens, com várias crianças chamando, teve de desviar o caminho, pois não fazia parte desse desenho. O avião que trazia uma faixa, com linda declaração de amor, teve de mudar a rota, pois neste céu azul é que não foi desenhado. O pombo-correio que veio voando de fora da imagem, bateu o bico na borda e caiu. Por isso, o menino está sempre só.

Se as crianças do balão não conseguiram. Se o avião também não conseguiu. Se nem o pombo-correio teve sucesso, como é que eu, uma menina invisível, feita de palavras, poderia chegar até ele? Foi o que passei dias e dias pensando. Então, numa de minhas viagens, ouvi dizer que uma imagem valia mais do que mil palavras. Não tive dúvidas. Abri a oficina invisível, acendi as luzes transparentes e comecei a construir este imenso abraço de palavras. De mil e duas palavras. Para, um dia, entregar a ele.


                  





Metáforas
Quimeras

Quando ficar triste,
achando tudo mentira,
verá sonhos invertidos:
como imagens no espelho
mostrando por antônimos
o que o outro queria ter sido.

Não brigue: a verdade mais frágil
saberá dele.


                  





Metáforas
Tremores

Deito-me ao teu lado e meus dedos se desmoronam. Já não têm onde morar, esconsos e sozinhos, no cós da tua calça. Sinto o tremor do teu corpo, o zíper abrindo fendas num terremoto. O mundo se agita. A calça se parte. Minhas mãos são agora como fios de água sugados pela fenda na terra e entram pelos tecidos de poliamida e algodão. Minha boca te esconde em porões à prova de sismo: o teu corpo treme, as ondas se espalham. Pobre homem, não te assusta... a minha saliva te queima, mas minha língua te acalma: a minha boca é só um vulcão ao contrário. Toma essas pétalas escondidas no bojo dos meus seios: eu só queria que o teu mundo fosse tenro. E fosse calmo.


                  





Metáforas
Mariana

lambeu as lágrimas que escorriam,
manchando a língua de tristezas.
Quando o vazio é muito grande,
as lágrimas são transparentes.


                  





Metáforas
Sobre os livros

Era uma vez um leitor, curioso sobre a história dentro de um livro. Era uma vez um livro, curioso sobre os olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Mas porque alguém tinha de dar o braço a torcer, o livro rendeu-se e começou o primeiro capítulo. Os livros sempre se rendem: não é a toa que eles capitulam.


                  





Metáforas
Sobre a reciclagem

Eu sou contra a pena de lixo. Sou a favor da reciclagem. Afinal, o lixo também merece uma segunda chance.


                  





O amor nos pequenos gestos
O moço que entrega panfletos

Arrumo o meu cabelo e ele ajeita a camiseta. Existe alguma coisa entre nós: uma vontade mútua de não sermos cinzas. Van Gogh nos borrou de verde-água e agora nos reconhecemos, apesar da multidão. Eu, a moça que sai do trabalho e ele, o moço que entrega panfletos do dentista. É claro que eu sou muito mais do que uma moça que sai do trabalho e ele é muito mais do que um moço que entrega panfletos na rua. Mas tudo o que sei sobre ele é que uma obturação custa menos de dez reais e tudo o que ele sabe de mim é que meu sorriso é amplo e gratuito. Assim, a nossa relação gira em torno de dentes: fortes e insuperáveis. A multidão me atropela, assim como atropela e pisoteia os seus panfletos, mas eu paro por nove segundos, como se apanhasse a última edição do jornal, leio as suas manchetes odontológicas, sorrio ao meu amigo e digo... muito obrigada! A multidão o atropela, assim como atropela e pisoteia meus amuletos, mas ele pára por nove segundos, como se me entregasse os mais belos poemas camuflados, sorri e me diz... boa noite! E eu vou embora, com o nosso segredo guardado no bolso. Ali está meu cavaleiro andante e sua armadura de plástico, colorida, com os preços estampados.


                  





O amor nos pequenos gestos
Agora em silêncio

Sabe, acho que ninguém vai entender. Ou, se entender, não vai aprovar. Existe em nossa época um paradigma que diz: enquanto você me der carinho e cuidar de mim, eu vou amar você. Então, eu troco o meu amor por um punhado de carinho e boas ações. Isso a gente aprende desde a infância: se você for um bom menino, eu vou lhe dar um chocolate. Parece que ninguém é amado simplesmente pelo que é, por existir no mundo do jeito que for, mas pelo que faz em troca desse amor. E quando alguém, por alguma razão muito íntima, pára de dar carinho e corre para bem longe de você? A maioria das pessoas aperta um botão de desliga-amor, acionado pelo medo e sentimentos de abandono, e corre em direção aos braços mais quentinhos. E a história se repete: enquanto você fizer coisas por mim ou for assim eu vou amar você e ficar ao seu lado porque eu tenho de me amar em primeiro lugar. Mas que espécie de amor é esse? Na minha opinião, é um amor que não serve nem a si mesmo e nem ao outro.

Eu também tenho medo, dragões aterrorizantes que atacam de quando em quando, mas eu não acredito em nada disso. Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma que o mundo no qual eu acreditava haveria de existir em algum lugar do planeta! Haveria de existir! Nem que este lugar fosse apenas dentro de mim... Mesmo que ele não existisse mais em canto algum, se eu, pelo menos, pudesse construi-lo em mim, como um templo das coisas mais bonitas que eu acredito, o mundo seria sim bonito e doce, o mundo seria cheio de amor e eu nunca mais ficaria doente. E, nesse mundo, ninguém precisa trocar amor por coisa alguma porque ele brota sozinho entre os dedos da mão e se alimenta do respirar, do contemplar o céu, do fechar os olhos na ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, um banquinho cheio de almofadas coloridas e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banquinho do nosso amor, o nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a quantos anos, não sei, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas.

No mundo de cá, as relações se dão na superfície. Eu fico sobre uma pedra no rio e, enquanto você estiver na outra, saudável, amoroso e alto-astral, nós nos amamos. Se você afundar, eu não mergulho para te dar a mão, eu pulo para outra pedra e começo outra relação superficial. Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí todo o mistério da vida, a intenção mais genuína de um abraço. Encontrar alguém para encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir, não mais que isso, nem mesmo no sexo. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo. Mas se eu não atravessar isso agora, a minha arte será uma grande mentira, as minhas histórias de amor serão todas mentiras, o meu livrinho será uma grande mentira porque neles o que impera mais que tudo é a lealdade, feito um Sancho Pança atrás do seu louco Dom Quixote, é a certeza de existir um lugar, em algum canto do mundo, onde a gente é acolhido por um grande amigo. É por isso que eu tenho de ir. E porque eu não quero passar a minha existência pulando de pedra em pedra, tomando atalhos de relações humanas. Eu vou mergulhar com o meu amigo, ainda que eu tenha de ficar em silêncio, a cem metros de distância. Eu e o meu boneco de infância, porque no meu mundo a gente não abandona sequer os bonecos que foram nossos amigos um dia.

Agora em silêncio, tentando ensinar dragões a nadar.


                  





Metáforas
Aula de piano

Eu espero a aula começar, meu pai no saguão, lendo o jornal. Levanto a tampa e o piano sorri, branco e vago, implorando algum som. Mas eu não sei lhe tocar, disseram meus dedos. E o piano estrondo, rancoroso da última vez que o professor deixou de tocá-lo para me. Meus dedos trêmulos tentando fá alcançar enquanto seus dedos por baixo de minha saia, tentando lá, sustenido, faz quase Sol e a partitura dizendo-lhe pausa de oito tempos! Pausa de oito tempos! Deixe-me respirar! Mas o professor desamarrando as cinco linhas do pentagrama e as amarrando em minhas mãos. Quando não pude mais, seus lábios toquei, sobre as oitavas, eu. Já reparou como o orgasmo é, silenciosamente, agudo? Implodi. Suaves estilhaços. As colcheias têm pontas. Há música dentro de mim fá sol. Meus dedos agarrados às teclas do piano. Seus dedos agarrados aos meus. Sim, meu pai, hoje tocamos a quatro mãos.


                  





Metáforas
Sobre o amor

Quem não compreende o silêncio
ainda não está pronto
para ser flor.


                  





Jornal das Pequenas Coisas
Bota modernista é inaugurada na calçada


Foto: Rita Apoena

Agora, todas as formigas que atravessam a Calçada Limeira, podem visitar as Botas Gêmeas, na antiga Via das Flores. O projeto, de arquitetura moderna, chama atenção por suas linhas sinuosas e pelo arrojado teto solar. (Lembramos que, neste caso, solar não deriva de Sol, mas de sola de sapato). Para a inauguração de hoje, a convidada de honra é a soprano Ana Cigarra. Os leitores do JPC podem retirar ingressos com 1h de antecedência. A entrada é franca (para quem conseguir entrar).


                  





O amor nos pequenos gestos
Guilherme


Foto: Rita Apoena

Eu pus o nome dele: Dudu. Porque assim era bom. Porque os outros boneco queria ser amigo dele. Aí, eu deixei. Eu deixei ser amigo dele. Já o outro eu perdi: o Snoopy. Eu encontrei ele uma vez. Mas, depois, eu perdi ele de novo! Coitado, né? O Dudu eu não perdo, não. A gente não briga. Quer dizer, só quando é de lutinha. A gente é amigo. Eu só durmo com ele. Quer dizer, tem dia que ele some e vai dormir no caixote com os outro boneco, porque eles tudo é amigo também. Ah, era só isso que eu tinha pra falar nessa entrevista, tá?


                  





Metáforas
Sobre as árvores

A árvore é o chão erguendo frutas ao alcance dos passarinhos. Exceto quando fazem sombra, nunca podem se deitar: sua função é equilibrar ninhos.


                  





O amor nos pequenos gestos
Moça

Não estou falando de um mundo cor-de-rosa ou de pessoas perfeitas, sempre prontas para nos acolher, amar, caminhar ao nosso lado. Não falo disso, mas da tristeza nos olhos de quem vira as costas e a gente não vê. A beleza por dentro de um peito encouraçado que a gente não sente. A solidão de quem afasta um amor e se deita em camas tão frias. É do instante quando os olhos se perdem no nada e nenhuma mentira é capaz de enganar si mesmo. É desse instante solitário, desse instante sem abraço, que eu digo. Todo mundo vai virar as costas ou dizer que merece coisa melhor ou debochar das mentiras que eles contaram... mas a gente pode sempre voltar e acolher com amor, ser os primeiros a começar. Afinal, se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir?


                  





Metáforas
Sobre eles

Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.