|
O amor nos pequenos gestos
 Fotos: Rita Apoena
"Eu saí hoje, vi que não tinha nada para tomar café, mas eu tinha três reais na bolsinha. Dei para a Teresa comprar comida aos meninos. Teresa me faz muita raiva, mas eu fui nascida para perdoar. As pessoas nascem para certas coisas desde que o mundo é mundo, eu fui nascida para perdoar... "
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
O amor nos pequenos gestos
 Foto: Rita Apoena
"Perdi meu pai quando minha mãe estava grávida. Me criei. Nem tinha o que comer, não tinha o que vestir, não tinha o que calçar. Minha mãe fazia uns sapatos, uns chinelos pra vender, pra nós comprar o que de comer. Quando ela estava se erguindo, um tio meu quase matou ela porque minha tia fugiu com um rapaz e ele pensava que mãe sabia. E mãe procurando ela. Então, a gente comia uns matos lá no norte, xique-xique, chega ardia garganta, palma, umbu, quixaba. Minha mãe muito doente. Aí eu falava: 'Ai mãe vamos embora daqui!'. Ela dizia 'Não, minha filha. Para onde eu vou? Já vendi a minha casinha.' Eu disse, pequeninha. 'Mãe eu corto mamona, nós faz uma casinha na areia. Lá é difícil chover mesmo. Com as folhas assim, lá não chove mesmo e daí eu vou procurar fruta para nós comer. E eu fui mesmo e ela foi atrás, tadinha, fazer meus gostos... Parecia uma casinha de boneca, ela entrou assim, se encurvando. E ficou lá comigo."
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Jornal das Pequenas Coisas
Benjamins começam a
namorar
 Foto: Rita
Apoena
Depois de tanto sufoco e timidez, finalmente se
encontraram, no laguinho da pia. Ela, um pouco envergonhada de suas sardas
e pintas e ele, como dizem, mais vermelho do que um pimentão, sem
saber como lhe pedir um benjinho. Tinham tanto, tanto! a dizer que
não achavam palavras. Então, ficaram em silêncio, olhando-se pelos
reflexos, um sorvendo a presença do outro.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Jornal das Pequenas Coisas
Lápis não aprova o novo corte de cabelo
 Foto e maquiagem: Rita Apoena
Fábio Castel, um dos convocados para a prestação do Serviço Militar, saiu do apontador muito desapontado, quer dizer, apontado, não! não! quer dizer, desapontado, ao perceber o seu novo corte de cabelo. O corte em estilo reco, obrigatório para os soldados do 17º Batalhão do Estojo, não agradou em nada o novo soldado, que muito se orgulhava das suas longas madeiras. "Olhem só para mim. O que foi que fizeram no meu cabelinho? Agora, toda vez em que eu me olho no espelho, tomo um susto com esse corte moicano. Por um instante, eu chego a pensar: mas quem é esse punk aí do outro lado?", contou Fábio, muito emocionado, ao Jornal das Pequenas Coisas. Psicólogos endossam as críticas, dizendo que o novo corte de cabelo pode afetar a auto-estima dos lápis.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Jornal das Pequenas Coisas
 Foto: Rita Apoena
Na manhã
de domingo, Dona Epifânia, uma senhora de 73 anos, perdeu a chave do seu
porãozinho. Esfregou a testa. Chacoalhou a cabeça. Mas, tal qual um fio com mau
contato, nada do que fizesse parecia ajudar a sua combalida memória. Na mesma
parede, dezenas de formigas estavam separadas pelas catástrofes dos últimos
instantes: uma porta que, num rangido estrondoso, abrira-se numa fenda de mais
de 7 cm da escala Ritcher. Dona Epifânia, sem esperança de encontrar a chave, vê
um cadarço jogado e une porta e batente. As formigas, mesmo feridas, atravessam
a ponte de pano, na maior mobilização já vista. Em todos os formigueiros, a
operação resgate foi transmitida ao vivo. Algumas formigas ajustavam as antenas
para eliminar os chuviscos da imagem. Por fim, Dona Epifânia, sem saber de nada
que acontecia no reino das formigas, afundou-se no sofá para assistir ao jornal.
Das notícias grandes, é claro.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Jornal das Pequenas Coisas
Passeata de botões reivindica casa própria
 Foto: Rita Apoena
No último domingo, botões invadiram a fazenda de Rita Apoena, reivindicando casa própria. Ao saberem que a latifundiária abriria cinco casas em sua nova blusa, os botões concentraram-se em frente a sua caixinha de costura, exigindo mais casas. O presidente do sindicato subiu na máquina de costura e discursou para a categoria. A latifundiária tentou justificar a sua escolha, dizendo que não havia espaço para outras casas, pois era uma blusa e não um vestido. Mas a justificativa irritou ainda mais os botões. Eles percorreram as costas da blusa, as mangas, os punhos e golas em passeata, acusando a proprietária de esconder o tecido e sonegar impostos. Por fim, Rita Apoena cedeu e resolveu abrir casas para todos os botões, independente do tamanho ou da cor. Pregou botão nas costas, na gola, nas mangas, no punho. O conflito só terminou quando Rita aceitou levar todos os botões para pular o carnaval, com sua blusa tão alegrinha (sic).
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Jornal das Pequenas Coisas
 Foto: Rita
Apoena
Certo dia, dentro de uma caixa escura, sentiram
muito medo e prometeram que ficariam sempre juntos, para cuidar um do outro.
Desde então, nunca mais deixaram de ser amigos. Nunca mais se separaram. Andaram
por ruas e ruas, cidades e montanhas; conheceram a textura das pedras, das poças
e folhas. Juntos enfrentaram tudo (até o cocô do cãozinho) e brincaram de roda
na máquina de lavar...
Quanto mais velhos ficavam, mais conheciam os
remendos do outro. E quanto mais conheciam, mais se soltavam. Soltaram a
palmilha, o bico e a sola. Abriram fendas para entrar a água da chuva. Até que
voaram, voaram tão alto... Presos no fio, de cadarços dados, brincavam de
balanço. Rodavam lentos, um de cada vez, sem acreditar nas belezas do mundo. As
belezas que só agora, como sapatos do vento, conseguiam enxergar.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Jornal das Pequenas Coisas
Taturana aproveita o feriado no Bungee Jump
 Foto: Rita Apoena
Uuuuuuuuuu era o que se ouvia por todo o jardim. Enquanto caranguejos e siris aproveitavam o feriadão na praia, TaturAna Paula saltava de Bungee Jump no quintal de Rita Apoena. A princípio, todos ficaram surpresos. É que TaturAna Paula andava tristinha. Fora chamada de "bicha cabeluda" por seu paquera e ficara muito amuada no tronco da árvore. Não entendia por que feria tanto as pessoas que tentavam se aproximar. E chegou a pensar que alguém com tantos pés no chão, não seria nunca capaz de voar. Mas foi quando o sol iluminou, não só a folha da palmeira, como as idéias de TaturAna Paula. Ela correu e se abraçou na folha o mais que pôde, com todos os seus braços e pezinhos. A folha não se afastou. De longe, enquanto adubava a terra, Rita Apoena ouviu a alegria de uma taturana que, por alguns minutos, aprendeu a voar.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
9. O frio das
geleiras
Ah... e agora você me diz: que coisa
idiota, que grande alarido por causa de uma calça inventada de alta-costura, com
listras horizontais, brancas e pretas, quando há tantos problemas no mundo! Sim,
eu também acho! Se não tivéssemos inventado as roupas, quem sabe não
teríamos ido morar nas geleiras e sobrevivido ao frio de tantas regiões.
Estaríamos todos numa mesma faixa tropical; mais ou menos, com o mesmo tom de
pele, os mesmos traços; uma vez que cada região resultou num fenótipo capaz de
garantir a sobrevivência no local. As roupas, por sua vez, não teriam sido marca
de distinção social, os melhores caçadores não teriam exibido suas melhores
peles, nem mesmo aquele homem, o terno mais sofisticado. Logo, a culpa não
é da minha pobre calça inventada de alta-costura, com listras horizontais,
brancas e pretas, não é!!! De uma vez por todas, pessoal, deixem-me em paz com
minha calça inventada de alta costura! Poxa...
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
7. As listras brancas e
negras
O mais estranho é que se eu decidir que a
minha calça inventada de alta-costura será de listras horizontais, brancas e
pretas, as pessoas irão associá-la às roupas dos presidiários, mesmo que eles
não usem mais esse tipo de roupa. Listras brancas serviam para identificar os
prisioneiros no escuro e as listras pretas para identificá-los nos ambientes
claros. E eram horizontais para que não fossem confundidas com as grades da cela
- verticais. Ora, mas eu não quero fugir, gente! Eu não quero ser identificada
em ambiente algum, pessoal! Pelo contrário! Só queria andar em paz
com minha calça inventada de alta-costura de listras horizontais,
brancas e pretas, só isso...
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
7. A calça de alta-costura
Esta calça de alta-costura, que inventei quando viajei pelas roupas, não sou livre para usá-la no meio da rua. Entretanto, aquelas mulheres andam com penas de pavão no carnaval e está tudo bem! As pessoas combinaram que no carnaval anda-se com penas de pavão. Mas, na rua, não se anda com calças de alta-costura. Eu não participei da convenção onde essas coisas foram acertadas sem que eu, também, desse o meu aval. O que leva essas pessoas, que eu nunca vi, esperarem de mim que eu não saia na rua com minha calça inventada de alta-costura? Que eu não saia pelada? Que eu não converse com as árvores? E tantos outros comportamentos? Hum, preciso pensar a respeito.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
6. O sal do oceano
Nessa poeira existe até o sal do oceano. O sal se evapora e é quase tão numeroso quanto as partículas de terra, não é impressionante? Eu estava quase concluindo que nem precisaria mais viajar, que havia de tudo naquele quarto, até partículas de oceano havia, vejam só. Contei a minha mãe e ela me sugeriu um aspirador de pó, disse que estava na hora de limpar a bagunça. Ah... minha mãe não compreende a magnitude do caos! Até seu coração bate caoticamente, mãe! A mancha vermelha de Jupiter, mãe! Mas a minha mãe não parece acreditar que Jupiter tenha alguma coisa a ver com um pé de meia jogado no chão. Mas eu defendo que sim! A moça da limpeza vem e arruma tudo. O que acontece? O que acontece? Você não acha mais nada. E por quê? E por quê? Porque a natureza caótica do seu quarto foi alterada! A poeira de Mar. Céus! O que aconteceu com a sua poeira importada de Marte!? Essa não! A moça levou tudo numa flanela molhada. Droga.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
5. A casa dos gigantes
Pensei outra coisa agora. Se há mais pó do que seres humanos; se seres humanos não entram pela janela como fazem as poeiras, escondendo-se aos bilhões embaixo dos móveis; se talvez nós, seres humanos, sejamos o pó na casa de gigantes, gigantes tão grandes (err...) que não conseguimos enxergá-los, se somos seis bilhões no planeta, então os gigantes não são tão numerosos assim, devem ser apenas um ou dois solitários perdidos pelo universo. Talvez seja esse gigante que as pessoas chamam de Deus. Calma, eu chegarei à Europa. É que a jornada de uma poeira, como eu, até o estrangeiro, demora muito. Afe...
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
4. Uma hipótese
Há sempre mais pó dentro de uma casa do que fora dela e, todo ano, a massa da Terra é aumentada em milhares de tonelada por conta do pó extraterrestre. Agora, pensei outra coisa (às vezes, isso é um grande problema): há muito mais pó do que seres humanos, pois nunca vi gente entrando pela janela desse jeito. Poeira que se esconde embaixo dos móveis e cantinhos secretos. Parece que a poeira quer morar! Insiste, sem trégua, um lugarzinho no meu quarto! Bem, duvido que a poeira de Marte, no canto do monitor, tenha me visto com aquela roupa ridícula. Ou, talvez, ela esteja viajando também, com uma roupinha esdrúxula, naquilo que ela pensa ser o quartinho dela, né? Então... "- Olá, poeirinha!"
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
Bem, da viagem nas roupas, descobri que uma jaqueta de frio serve muito bem como calça inusitada, especialmente para quem tiver as pernas finas. Instrução 1: enfie os cambitos no lugar das mangas. Instrução 2: abotoe o fecho-ecler. Veja, não sei por que você faria isso, talvez você precise algum dia, não sei. Aliás, ficou uma bela calça de alta-costura. Os costureiros famosos devem passar o dia inteiro vestidos assim: a blusa no lugar da calça, a cueca no lugar da touca e assim por diante, para inventarem tantas roupas esdrúxulas como aquelas que eu vejo na Fashion TV. Talvez, eu seja uma poeira, uma poeirinha assim, vestida de alta-costura, na casa dos gigantes. Gigantes tão grandes (err..) que eu não consigo sequer enxergá-los.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
As pessoas dizem as coisas e essas coisas passam a existir, assim como Deus fez com o mundo. Bem, eu não acredito muito nessa história e, provavelmente, nem Deus acredite nas minhas. Tudo bem. Acontece que, agora, depois de me lembrar do artigo de John Ferguson, fico pensando que a poeirinha, na quina do monitor, deve ser de Marte e a outra, em cima do livro, deve ser de Saturno. Costuma-se trazer das viagens lembrancinhas para os amigos. Eu poderia dar de presente umas poeiras importadas de Marte e outras de Saturno, né? Bastaria eu passar uma flanela molhada. Ninguém nunca me deu uma flanela molhada de presente, que estranho...
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Diário Bobo de Viagem
1. a viagem
Então, cismei que precisava viajar, pois tinha vindo ao mundo em excursão e estava perdendo a viagem. Mas não poderia ser qualquer viagem: pegar um avião e descer em país estrangeiro. Não. Antes, eu começaria por viajar dentro da roupa, vestindo a camisa do avesso e de trás para frente. Depois, ficaria uma semana viajando no quarto, descobrindo fendas e esconderijos. Entrei no guarda-roupa e fiquei ali, como às vezes faz o Gatildo, meu gato. Acabei me dando conta de que não estava sozinha, que éramos cupins, traças, poeiras e ácaros, todos juntos, ali dentro. Gritei assim: As viagens de Gulliveeeeer. E minha mãe entrou. Isso não foi muito bom porque já tem aquilo da psicóloga atestar o meu desajuste. Depois, gritar dentro do guarda-roupa fechado, só você ali dentro, isso não é bom. Ah, mas querer descobrir um novo ponto-de-vista não é coisa de doido, é? Acho que não. Certa vez, li num artigo de John Ferguson que um ambiente fechado tem mais poeira do que ao ar livre e que, na casa das pessoas, há poeira de todos os locais do planeta, inclusive poeira extraterrestre! Logo, ficar escondida no guarda-roupa seria começar uma viagem interplanetária!
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Mas a poeira é só a vontade que o chão tem
de voar.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Os cílios agarraram-se às pálpebras quando tentei
fechar meus olhos. Mas você assoprou e todos voaram. De novo nasceram e de novo
voaram. Não faça mais isso! Quem vai cortar a lágrima em fatias no dia em que
você for embora?
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
O regador é só uma mentira de chuva que eu tenho de contar às flores, todas as manhãs.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
grandes centros
e só essa multidão que esbarra e esbarra em meus ombros em alguns anos, terei os ombros esculpidos pela solidão.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
sobre a raiva
no calor do fogo é que se molda o vidro e quando a peça esfria vê-se um pote fundo de tristezas.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Eu queria que seus olhos caíssem no buraco negro dos meus
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
— Não... não te preocupa, vestido! Amanhã, quando
o sol quente voltar ao céu e todas as nuvens te quiserem de volta, os
dois pregadores, no varal, vão te salvar...
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Os tremores da terra são apenas as flores
nascendo.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Então, quando você me beijar, vai sentir o gosto
da minha escrita, pois a fim de nunca esquecê-las eu trago todas as
minhas palavras na ponta da língua.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Vivo tão intensamente o momento presente que
quase chego atrasada ao momento seguinte.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
E o arco-íris, que estava frouxo, deitado em algum
chão desse mundo, esticou-se em arco no céu. Afinando, o Sol deu o tom.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
E apesar de toda a velocidade, o sol
acompanha o meu rosto através da janela, feito uma pipa alta, amarrada pela
esperança.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
diálogo
— E você, por que desvia o olhar?
(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)
— Ah. Porque eu sou tímida.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Essa casquinha fez uma ponte sobre a ferida
porque feridas abertas são como abismos por dentro.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
do desprezo
Mas tem dias em que ele me abraça um abraço empalhado. Um espantalho que abriu os braços apenas para espantar os corvos.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Deitada na grama, o céu empoeirado de estrelas.
Passei o dedo e - curioso - algumas vieram grudadas na ponta. Olhei para cima e
assoprei. Foi tanta estrela caindo que agora eu mal consigo enxergar de tanta
esperança.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Quando você vai embora de nós o pronome parte-se
ao meio você diz que só leva o s e o que adianta? se comigo sobra o
nó na garganta.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
separação
Este quarto ficou grande demais. E eu queria um quarto onde só coubesse o meu corpo, uma casca de concreto ao redor de mim. Eu não queria muita coisa. Eu só queria que as paredes me abraçassem.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
despedidas
Mas o amor ainda quente no peito fazia as lágrimas grudarem no rosto feito gotas de vela: endurecidas.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
borboletas paralíticas
Sim, eu sei. Pode parecer maluquice, mas eu vou mesmo desparafusá-las e arremessá-las no jardim. Mesmo que não possam voar, ficarão entre as flores, o devido lugar das borboletas paralíticas. Não suporto mais essa idéia de abrir a janela, levantar os vidros e vê-las ali: disfarçadas de dobradiças.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Olhar a manequim de uma loja é deparar-se com o
silêncio triste de uma boneca que cresceu. E que, agora, só queria inverter
a brincadeira e vestir em você aquele monte de roupinhas.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Murchar é chorar ao avesso, um choro
seco puxando lágrimas para dentro dos olhos, uma outra vez.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Arrepio
Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pêlos, curiosos, levantam-se para ouvir o
suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras,
acompanham seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de
tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Quando voltar do trabalho, olhe para cima e repare:
no meio dos prédios, altos, frios e cinzentos todos os postes de luz, com
seus fios adormecem de mãos dadas.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Encosto o meu dedo em sua pele, mas ela não afunda.
Não é possível. Desabotôo a sua camisa e deito a minha cabeça em seu peito, meu
homem de lata. Diante do novo segredo, eu queria chorar, mas posso enferrujá-lo.
Então, como viveria em paz sem a sua armadura? Sem nada entender, você se vira e
vai embora. E só então eu percebo: a sua armadura é furada, meu amor. Nas
centenas de furos sobre a lata, vai aguando todas as plantinhas ao seu redor.
Você é, na verdade, um lindo homem regador.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
A dança não é nos braços ou nas pernas; sequer em
qualquer movimento. A dança é isso aqui dentro, uma moça tímida que passa os
seus dias trancada, até pensar que os tambores da música são apenas os seus
amigos... batendo na porta.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Talvez, uma noite de insônia seja a vontade do dia
em frustrar todas as expectativas que lhe impuseram durante bilhões de anos:
amanhecer. Mas nós não acreditamos, nós achamos que não dormimos ou que perdemos
o sono, quando foi o sono que nos perdeu. Se eu não durmo, a noite não
sonha.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Abraçar é encostar um coração no outro.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Dançar é acariciar o vazio.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
A música foi a grande decisão do homem de abraçar o invisível.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Algumas frases têm o poder da folha em branco. Se
alguma delas acertar você, abandone as suas respostas: é inútil escrever de
branco sobre folhas brancas. Minha caneta transparente estourando frases dentro
da bolsa. Foi um grande silêncio.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|
Metáforas
Sobre o estrondo
Hoje, ao acordar de repente, descobri que até mesmo os sonhos só consigo sonhá-los em versos.
E acordei, não porque a porta bateu não porque o estrondo abissal mas porque meu sonho entendeu que o barulho era um ponto final.
Escrito por Rita Apoena |
| envie o texto |
link
|
|