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Yolk's e a Menina Invisível
 Ilustração: Jovan de Melo
Eu não tenho cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. Eu sou só uma menina invisível, deitada na grama invisível que a moça que não sabia desenhar, não desenhou. Aquele é o menino que eu não lhe falei. Ele sempre está preso num único instante; o instante em que o moço que sabia desenhar, o desenhou.
O balão que subia as nuvens, com várias crianças chamando, teve de desviar o caminho, pois não fazia parte desse desenho. O avião que trazia uma faixa, com linda declaração de amor, teve de mudar a rota, pois neste céu azul é que não foi desenhado. O pombo-correio que veio voando de fora da imagem, bateu o bico na borda e caiu. Por isso, o menino está sempre só.
Se as crianças do balão não conseguiram. Se o avião também não conseguiu. Se nem o pombo-correio teve sucesso, como é que eu, uma menina invisível, feita de palavras, poderia chegar até ele? Foi o que passei dias e dias pensando. Então, numa de minhas viagens, ouvi dizer que uma imagem valia mais do que mil palavras. Não tive dúvidas. Abri a oficina invisível, acendi as luzes transparentes e comecei a construir este imenso abraço de palavras. De mil e duas palavras. Para, um dia, entregar a ele.
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Metáforas
Mariana
lambeu as lágrimas que escorriam, manchando a
língua de tristezas. Quando o vazio é muito grande, as lágrimas são
transparentes.
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Metáforas
Sobre os livros
Era uma vez um leitor, curioso sobre a história dentro de um livro. Era uma vez um livro, curioso sobre os olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Mas porque alguém tinha de dar o braço a torcer, o livro rendeu-se e começou o primeiro capítulo. Os livros sempre se rendem: não é a toa que eles capitulam.
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Metáforas
Sobre a reciclagem
Eu sou contra a pena de lixo. Sou a favor da reciclagem. Afinal, o lixo também merece uma segunda chance.
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O amor nos pequenos gestos
O moço que entrega panfletos
Arrumo o meu cabelo e ele ajeita a camiseta. Existe alguma coisa entre nós: uma vontade mútua de não sermos cinzas. Van Gogh nos borrou de verde-água e agora nos reconhecemos, apesar da multidão. Eu, a moça que sai do trabalho e ele, o moço que entrega panfletos do dentista. É claro que eu sou muito mais do que uma moça que sai do trabalho e ele é muito mais do que um moço que entrega panfletos na rua. Mas tudo o que sei sobre ele é que uma obturação custa menos de dez reais e tudo o que ele sabe de mim é que meu sorriso é amplo e gratuito. Assim, a nossa relação gira em torno de dentes: fortes e insuperáveis. A multidão me atropela, assim como atropela e pisoteia os seus panfletos, mas eu paro por nove segundos, como se apanhasse a última edição do jornal, leio as suas manchetes odontológicas, sorrio ao meu amigo e digo... muito obrigada! A multidão o atropela, assim como atropela e pisoteia meus amuletos, mas ele pára por nove segundos, como se me entregasse os mais belos poemas camuflados, sorri e me diz... boa noite! E eu vou embora, com o nosso segredo guardado no bolso. Ali está meu cavaleiro andante e sua armadura de plástico, colorida, com os preços estampados.
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O amor nos pequenos gestos
Agora em silêncio
Sabe, acho que ninguém vai entender. Ou, se entender, não vai aprovar. Existe em nossa época um paradigma que diz: enquanto você me der carinho e cuidar de mim, eu vou amar você. Então, eu troco o meu amor por um punhado de carinho e boas ações. Isso a gente aprende desde a infância: se você for um bom menino, eu vou lhe dar um chocolate. Parece que ninguém é amado simplesmente pelo que é, por existir no mundo do jeito que for, mas pelo que faz em troca desse amor. E quando alguém, por alguma razão muito íntima, pára de dar carinho e corre para bem longe de você? A maioria das pessoas aperta um botão de desliga-amor, acionado pelo medo e sentimentos de abandono, e corre em direção aos braços mais quentinhos. E a história se repete: enquanto você fizer coisas por mim ou for assim eu vou amar você e ficar ao seu lado porque eu tenho de me amar em primeiro lugar. Mas que espécie de amor é esse? Na minha opinião, é um amor que não serve nem a si mesmo e nem ao outro.
Eu também tenho medo, dragões aterrorizantes que atacam de quando em quando, mas eu não acredito em nada disso. Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma que o mundo no qual eu acreditava haveria de existir em algum lugar do planeta! Haveria de existir! Nem que este lugar fosse apenas dentro de mim... Mesmo que ele não existisse mais em canto algum, se eu, pelo menos, pudesse construi-lo em mim, como um templo das coisas mais bonitas que eu acredito, o mundo seria sim bonito e doce, o mundo seria cheio de amor e eu nunca mais ficaria doente. E, nesse mundo, ninguém precisa trocar amor por coisa alguma porque ele brota sozinho entre os dedos da mão e se alimenta do respirar, do contemplar o céu, do fechar os olhos na ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, um banquinho cheio de almofadas coloridas e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banquinho do nosso amor, o nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a quantos anos, não sei, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas.
No mundo de cá, as relações se dão na superfície. Eu fico sobre uma pedra no rio e, enquanto você estiver na outra, saudável, amoroso e alto-astral, nós nos amamos. Se você afundar, eu não mergulho para te dar a mão, eu pulo para outra pedra e começo outra relação superficial. Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí todo o mistério da vida, a intenção mais genuína de um abraço. Encontrar alguém para encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir, não mais que isso, nem mesmo no sexo. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo. Mas se eu não atravessar isso agora, a minha arte será uma grande mentira, as minhas histórias de amor serão todas mentiras, o meu livrinho será uma grande mentira porque neles o que impera mais que tudo é a lealdade, feito um Sancho Pança atrás do seu louco Dom Quixote, é a certeza de existir um lugar, em algum canto do mundo, onde a gente é acolhido por um grande amigo. É por isso que eu tenho de ir. E porque eu não quero passar a minha existência pulando de pedra em pedra, tomando atalhos de relações humanas. Eu vou mergulhar com o meu amigo, ainda que eu tenha de ficar em silêncio, a cem metros de distância. Eu e o meu boneco de infância, porque no meu mundo a gente não abandona sequer os bonecos que foram nossos amigos um dia.
Agora em silêncio, tentando ensinar dragões a nadar.
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Metáforas
Sobre o amor
Quem não compreende o silêncio ainda não está pronto para ser flor.
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Jornal das Pequenas Coisas
Bota modernista é inaugurada na calçada
 Foto: Rita Apoena
Agora, todas as formigas que atravessam a Calçada Limeira, podem visitar as Botas Gêmeas, na antiga Via das Flores. O projeto, de arquitetura moderna, chama atenção por suas linhas sinuosas e pelo arrojado teto solar. (Lembramos que, neste caso, solar não deriva de Sol, mas de sola de sapato). Para a inauguração de hoje, a convidada de honra é a soprano Ana Cigarra. Os leitores do JPC podem retirar ingressos com 1h de antecedência. A entrada é franca (para quem conseguir entrar).
Rita Apoena |
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O amor nos pequenos gestos
Guilherme
 Foto: Rita Apoena
Eu pus o nome dele: Dudu. Porque assim era bom. Porque os outros boneco queria ser amigo dele. Aí, eu deixei. Eu deixei ser amigo dele. Já o outro eu perdi: o Snoopy. Eu encontrei ele uma vez. Mas, depois, eu perdi ele de novo! Coitado, né? O Dudu eu não perdo, não. A gente não briga. Quer dizer, só quando é de lutinha. A gente é amigo. Eu só durmo com ele. Quer dizer, tem dia que ele some e vai dormir no caixote com os outro boneco, porque eles tudo é amigo também. Ah, era só isso que eu tinha pra falar nessa entrevista, tá?
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Metáforas
Sobre as árvores
A árvore é o chão erguendo frutas ao alcance dos passarinhos. Exceto quando fazem sombra, nunca podem se deitar: sua função é equilibrar ninhos.
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O amor nos pequenos gestos
Moça
Não estou falando de um mundo cor-de-rosa ou de pessoas perfeitas, sempre prontas para nos acolher, amar, caminhar ao nosso lado. Não falo disso, mas da tristeza nos olhos de quem vira as costas e a gente não vê. A beleza por dentro de um peito encouraçado que a gente não sente. A solidão de quem afasta um amor e se deita em camas tão frias. É do instante quando os olhos se perdem no nada e nenhuma mentira é capaz de enganar si mesmo. É desse instante solitário, desse instante sem abraço, que eu digo. Todo mundo vai virar as costas ou dizer que merece coisa melhor ou debochar das mentiras que eles contaram... mas a gente pode sempre voltar e acolher com amor, ser os primeiros a começar. Afinal, se a hostilidade do mundo despertar a nossa, quem vai ser o primeiro a sorrir?
Rita Apoena |
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Metáforas
Sobre eles
Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.
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Metáforas
Informe meteorológico
São os passarinhos bicando as nuvens até derramarem a chuva por cima de nós.
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O amor nos pequenos gestos
Dona Epifânia II
 Fotos: Rita Apoena (Dona Epifânia e
Guilherme)
"Aí, quando foi perto dela morrer, ela chamou todo mundo e disse: 'Ói, gente, num deixe a minha menina morrer de fome não, nem de
necessidade, nem de nada, que essa fia minha didicou toda vida a eu.' Foi um
desgraçado que bateu em minha mãe, ela véinha, quase matou! Encontrou ela na
estrada e deixou na palha de banana. E mãe ainda perdoou ele. Passou um tempo,
eu disse: 'Mãe, um homem desgraçado desse, eu queria pegar um boneco dele e
fincar na agulha'. E mãe: 'Não, fia, não pode isso, não. A gente tem de perdoar
todo mundo. Tudo o que é ruim e tudo o que é bom. Você vai ver, ele morreu
amarrado, endoidou, ficou doido. E eu... ói, você vai ver como é que eu vou
morrer, minha fia... ' E foi memo. Eu disse: 'Mas mãe, a senhora ficou mais
doente depois que esse desgraçado lhe bateu!' E ela de novo: 'Não fia, ele
morreu lá, todo atrapalhado, endoidou, mas você vai ver como eu vou morrer, eu
vou morrer fechando o zóio feito um passarinho. E foi memo. Dali um pouco,
mãezinha fechou o zóio feito um passarinho..."
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O amor nos pequenos gestos
Menina
Não precisa ficar com ódio até crescer, quando ele abrir a porta e com mãos adultas esmagar seus sonhos de criança, haverá no gesto delas o desespero de um adulto tentando abrir com força uma caixinha de música, que nunca mais tocou ao seu coração rude. Não vê como bravo, ele está triste, procurando a infância dentro de você? Não vê como os seus braços, violentos, apertam tanto, tanto... querendo abraçar? Não vê como seus olhos duros estão querendo chorar? Vem, moço, vem brincar no balanço e no gira-gira. Vem ver a pequenina bailarina rodar.
Rita Apoena |
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Metáforas
Sobre o sono
Meu sono é um crânio escuro, onde mora um homenzinho alado. Às seis da manhã, ele levanta as minhas pálpebras, assim como eu, na esperança do amanhecer, também levanto as janelas do quarto.
Rita Apoena |
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Metáforas
Rolimã
Esta ladeira foi um abismo que se deitou para que o menino pudesse brincar.
Rita Apoena |
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O amor nos pequenos gestos
Dona Mariana
 Foto: Rita Apoena
"Agora os filho tão grande, tem carro, tem ônibus de graça para os idoso e a gente não vai. O que será que está acontecendo? Será que a gente vai ficando velha e vai ficando assim? Mas não é, os novo também tão tudo enfiado dentro de casa, vendo tevê, fazendo uma coisa, fazendo outra, tudo com pressa. Não tem mais tempo de sentar para ser o amigo um do outro." (...)
"A gente cria, mas não dá coragem de matar. Lá na chácara, eu não vendia, deixava as galinha até morrerem de velhinhas. Aqui mesmo, morreram umas galinha, já não botavam mais nada, não tinham remédio, mas a gente não tem o costume de vender. Sei lá, eu acho até que... ah, não acho certo vender as galinha. Na casa da cumadi, teve uma festa de noite. Os convidado pegaram um patinho da gente. Depois, Dona Alzira achou uma pata com o pescoço cortado, sem morrer. Ô judiação, não era para comer que a gente criava os patinho, era só por amizade... " (...)
"Quando eu fizer mais pastel, eu chamo você, viu Rita. Você gostou do pastel? Toma mais suco, ó. Estava com saudade do pastel da Mariana, estava? Pode comer, come sim, não tenha bronca de comer. Eu chamo você. Ô, eu vou gostar tanto que você venha comer o pastel da Mariana, ô minha nossa, mas eu vou gostar tanto..."
Rita Apoena |
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Metáforas
Sobre o ninar
A gente dorme de olhos fechados que é para poder
sonhar por dentro, amor.
Rita Apoena |
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O amor nos pequenos gestos
Menina
Não precisa ficar com medo. Quando a sua mãe não abrir a porta e você passar o dia todo para o lado de fora, eu vou brincar com você e te abraçar tão forte que este sentimento de abandono irá se transformar em mil e quinhentas borboletas no ar, rodopiando em seu cabelo, fazendo cócegas em sua barriguinha. Então, você irá entender que sua mãe não pode abrir a porta porque dentro do quarto onde ela chora, faz tanto frio e tanto medo que o jeito mais bonito que ela encontrou de te amar foi te deixar para o lado de fora.
Rita Apoena |
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