No princípio, era a dor de barriga.

Minha história com as palavras é trágica. Começou (e quase terminou) com uma dor de barriga. Uma forte persistente e obstinada dor de barriga. Não vá supondo, o leitor, que comecei a ler no vaso sanitário. Não, não é isso. Naquela época, para desespero dos meus tios, nem o peniquinho eu sabia usar e andava amarrada em fraldas, pulando de um colo ao outro, chorando pelas madrugadas.

Tentaram de tudo: chás, simpatias, massagens na barriguinha. Tentaram até a ginástica das perninhas - estende, flexiona, estende, flexiona - para ver se a graciosa criança liberava um gracioso pum. Mas nada adiantava àquela criança recém-nascida. A questão é que os meus intestinos - e talvez um pouco o meu espírito - demoraram a se ajustar nesse mundo. O remédio veio nos livros...

Uma de minhas tias - leitora voraz e exímia contadora de histórias - percebeu que as palavras aliviavam a minha dor e a choradeira se intercalava com momentos de atenção. Decerto, quando a história era boa, e mesma fazia silêncio. Quando era chata, eu dormia. E quando Édipo furava os olhos, aí é que eu berrava pra valer!

Os anos passaram, a dor de barriga também, mas eu continuava puxando a minha tia pela saia: "Conta mais uma, conta?" Ah, pois não pensem que aquela senhora tão bondosa - até hoje ela se veste de palhaço e conta histórias em hospitais - fosse desprovida de pequenas maldades. Talvez por vingança - afinal, foram tantas noites mal dormidas - ela passou a não me contar o final. Quando os meus olhos já estavam arregalados e minhas sobrancelhas erguidas, ela simplesmente parava. Nada. Nem mais uma frase. Nem se e implorasse de joelhos, titia do meu coração. E ria, ai como ria... Com isso, quem não dormia era eu, imaginando cento e sessenta finais.

O jeito foi pegar uma cadeira e tirar uma cartilha velha do armário. Desenho de sapo, sa-se-si-so-su-são. Desenho de pato, pa-pe-pi-po-pu-pão... e assim por diante. Um dia, ao ouvir a sirene de uma ambulância, mostrei-lhe um papel: "ÃBULÃSIA" e saí triunfante, com minha cartilha embaixo do braço.

Depois disso, passei a ler e a escrever tudo o que eu queria, sem intermediários. Até histórias e pequenos poemas. O primeiro, escrevi quando um pássaro caiu do telhado e eu lhe prescrevi um cardápiobem nutritivo: arroz, feijão, fígado, banana, saladinha... tudo para que ele crescesse forte e saudável! Dias depois, escrevi em sua lápide:

O passarinho já não voa.
Sua vida não é boa.
Sua vida é tão ruim.
Porque ele só come pudim.

Pobre passarinho com dor de barriga.


                  





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O Casamento de Dona Lulu


O amor nos pequenos gestos




Comunidade Rita Apoena
Comunidade do Jornal
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Textos e fotos: Rita Apoena Ilustração do topo: Liniers
Desenhos: Jay e Pablo
Música: Amiina






Rita Apoena divide o quarto com uma lagartixa chamada Judith. Judith sempre volta para ouvir mais um trecho do seu livro. "Se o pessoal tiver o mesmo gosto da lagartixa, o meu livro vai ser um sucesso!" ela pensa animada.





Após receber os carinhosos e-mails e comentários, Rita Apoena veste sua touca ninja e responde telepaticamente. Por conta do sistema ultra rápido, ela tem mais tempo para escrever os livros. Se ainda não recebeu resposta, ajuste um pedaço de bombril na ponta da sua antena para melhorar a transmissão.




Ilford FP4 e Fuji Provalue.

Uma pena voou
Uma pena pousou
Caminho de penas
Um chinelo ficou
Uma pedra caiu
Uma chave sumiu
Um feixe invadiu
Um amigo se foi
Girassol I
Alguns morrem
Outros brotam
Girassol II
O chão amparou
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro




câmera compacta

muro
agasalho
intransponível
esperança
namoro dos benjamins
jacaré




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