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Cachecol xadrez
Querido Helano,
será que, às vezes, a gente vai com tanta pressa ao encontro de alguém que se esquece de se levar junto? Será que o Sol, quando é muito forte, faz a sombra chegar primeiro do que a gente? Será que é assim que tudo acaba? Ou nem mesmo começa? Acordei com uma fresta de luz brincando na cama, o sol deitando a sombra das folhas em minhas pálpebras. E era tão bonito e simples ver a luz pintando os móveis de colorido que entendi o fim de um casamento: nenhum amor floresce preso numa casa, sem contemplar, por instantes, a luz de uma tarde... Então, guardei aquela fotografia por dentro dos meus olhos para quando eu olhar você. E você, como sempre, não me responder palavras, não me escrever palavras, mas quando o sol for sumindo, me estender sorrindo o seu cachecol xadrez.
Rita Apoena |
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A viagem da tartaruga
"Dessa vez, eu fui um pouco mais longe!" Essa é a história de uma tartaruga que botou uma mochila nas costas e resolveu conhecer o mundo.

Como podem notar, a mochila era bem maior do que a sua cabeça. Dizem alguns, para disfarçar a cabeça-de-mamão-macho. Outros, que era uma mochila-barraca, sob a qual se esconderia nos dias chuvosos. Outros, que era uma borboleta sem asas, viajando num casulo-trailler. Seja lá como for, era uma tartaruga com pressa de viver.

"Pressa de viver?" - perguntou a lesma que passava por ali. "Como assim?" A tartaruga escondeu-se em sua mochila-barraca e não respondeu. "Mas você vai aonde com uma mochila desse tamanho?" - insistiu a lesma. "Para o mar" - disse a tartaruga. "Para o mar?!? Você está louca?!? Lá tem sal! Lá tem muito sal!" - respondeu a lesma.
Então, a tartaruga mudou de direção. Não porque daquele lado o mar era salgado, mas para terminar o assunto com a lesma. E terminou o assunto. Não porque não gostava da lesma, mas porque precisava estar sempre só. Um certo dia, porém, encontrou uma tartaruga chamada Boné.
 Boné era um cara estranho. Ele não se escondeu quando eles se encontraram. E não perguntou aonde ela ia com aquela mochila. Ele também tinha uma, mas não parecia ser de viagem. Nas primeiras horas, a tartaruga continuou escondida.
 
Mas, como Boné não se mexia, ela colocou a cabeça para fora e espiou. Nada. Boné continuava imóvel. A tartaruga também. Afinal, talvez ele fosse o Arrancador de Cabeçaas de Tartarugas. Uf.. Ela sentiu um calafrio ao se lembrar da vez em que foi pega por ele. Embora não tenha morrido, ele arrancou muitos pedaços. Depois disso, a tartaruga sempre se escondia quando alguém tentava se aproximar. Mas Boné não se aproximava e a tartaruga, aos poucos, tentou sair da barraca.
"Ei" - cutucou. "Você está bem?" - Boné não respondeu. E também não saiu do lugar. A tartaruga andou bem devagar ao redor dele. Quando tocou a sua mochila, descobriu um pergaminho branco, com uma história que ela jamais pôde esquecer.

Era uma história dura, tinha ferro, tinha mancha, tinha perigo. Vai ver tinha até Arrancadores de Cabeça. Mas era uma história doce, apesar de tudo. Uma história que dizia 100% algodão. 100% algodão... 100% algodão... a tartaruga ficou repetindo, com o olhar perdido. Que bonito era aquilo.
Passaram-se muitas semanas sem que a tartaruga seguisse viagem. Todos os dias, ela desenrolava o pergaminho e lia a história de novo. E de novo. E de novo. Era como viajar nas grutas mais fundas sem se cansar. Trazia alimentos e água para Boné, mas ele não se mexia. 
Um dia, um vento muito forte lançou Boné para longe. E ela, que nunca tinha visto tartaruga alguma voar, pensou que era assim que Boné terminava o assunto. E foi embora. No caminho, pensava nele. E se estivesse se debatendo naquela posição? Nenhuma tartaruga gostava de ficar olhando para o teto. Voltou.

Quando chegou perto, descobriu que dentro de Boné havia um imenso vazio. Um buraco. "Dói?" - a tartaruga perguntou. Boné não respondeu. Também, como poderia? E a tartaruga andava para lá... E andava para cá...
sem saber o que fazer. E, mesmo sem saber se era o correto, resolveu levá-lo junto.

Foi quando chegou o Arrancador de Cabeças em passos ligeiros! A tartaruga tentou correr o mais depressa que pôde, mas o Arrancador veio com tudo, olhou daqui, olhou dali, enfiou o Boné na própria cabeça e saiu. A tartaruga foi atrás, dizendo:

"Fuja, Boné! Não deixe que eles te levem! Não deixe! Fuja, fuja daí!" Mas Boné não disse nada. O vazio que tinha por dentro foi todo tomado pela cabeça do Arrancador. E a tartaruga andava para lá... E andava para cá... sem saber o que fazer. Então, elaborou um plano... (continua)
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Alvorada
 Foto: Rita Apoena
Quando você se sentir sozinho, pegue o seu lápis e escreva. No degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.
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Primeira carta
Andei as ruas todas em silêncio, fazendo silêncio pelo lado de fora. Quando não
quero que os meus pensamentos acordem as crianças do mundo, prefiro escrever uma
carta sem muito ruído. Antes disso, chamei a minha avó. Ela só queria um abraço.
Avós, na minha história, são pessoas que esperam o dia todo por um abraço.
Abraços, na minha história, são técnicas de estourar, com o corpo, um balão
cheio de vazios. Ah, Helano, vim pelas ruas lhe escrevendo cartas. Dois
rapazes riram das roupas de um homem. Quis escrever cartas ao homem também, mas
dois passos eram ainda mais longe que Paris! Queria dizer a ele que não se
sentisse desconfortável no mundo, tudo bem a sua blusa ser assim. O homem baixou
a cabeça como se o carteiro entre nossos passos tivesse errado os braços e o
homem, já tão longe de mim, tivesse atravessado a rua. Quis dizer que a blusa
roxa e brilhante brincava de voar no varal, acenando alegre aos transeuntes.
Quis dizer isso a ele, quis muito, mas não disse. Há tantas coisas que não
dizemos a um desconhecido. Talvez, ainda mais aos desconhecidos de Paris! Por
isso lhe escrevo, para que não se esqueça de nosso mundo quentinho. Por hoje,
fiquei com o começo desta carta e um abraço em minha avó. Por hoje, querido
Helano, por hoje, foi só.
Não sei se foi "Os sofrimentos do
jovem Werther" ou a presença do Helano no Brasil. Só sei que senti vontade de
escrever cartas de novo, e o meu amigo Helano é sempre
o lírico destinatário.
Rita Apoena |
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