Essência
Pessoas vestem roupas. Até a minha cama é forrada de lençol. Tem meia para o pé e luva para a mão. Tem calcinha, sutiã, touca e cachecol. Meu cachorro é cheio de pêlos e a montanha é cheia de árvores. Hoje, até as nuvens esconderam o céu e a grama forrou o quintal. Uma coisa é por cima da outra. A bala veio enrolada no plástico e até a borboleta se cobriu. Quando eu tiro a minha roupa, a epiderme não me abre e, se eu me descascasse, ainda seria músculo a enrolar o osso. É. Ainda tem o osso. Talvez eu seja, então, só aquela carninha dentro do osso de uma coxa de galinha.
Rita Apoena |
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Sementeira de tulipas
Querido Helano,
Hoje eu comprei sementes de girassol. Há isso de
extraordinário no mundo. Quando alguém se sente só ou com saudade de outrém pode
comprar sementes de girassol para vê-lo crescer. Pode até fazer uma sementeira
de tulipas. Neste caso, é preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos,
deixando cair uma ou duas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas, máquinas,
tratores ou edifícios, deixo aos outros, cuidarem. Também elas precisam de
carícias: não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado? Não vê a
máquina acarinhando a outra com a lixa? Há muitas formas de cuidar. E,
felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se me ocupo da semente é
porque escuto o seu silêncio. O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o
seu grãozinho de terra.
Rita Apoena |
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