meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8" /> Rita Apoena - Jornal das Pequenas Coisas
                                       



Diário Bobo de Viagem




9. O frio das geleiras

Ah... e agora você me diz: que coisa idiota, que grande alarido por causa de uma calça inventada de alta-costura, com listras horizontais, brancas e pretas, quando há tantos problemas no mundo! Sim, eu também acho! Se não tivéssemos inventado as roupas, quem sabe não teríamos ido morar nas geleiras e sobrevivido ao frio de tantas regiões. Estaríamos todos numa mesma faixa tropical; mais ou menos, com o mesmo tom de pele, os mesmos traços; uma vez que cada região resultou num fenótipo capaz de garantir a sobrevivência no local. As roupas, por sua vez, não teriam sido marca de distinção social, os melhores caçadores não teriam exibido suas melhores peles, nem mesmo aquele homem, o terno mais sofisticado. Logo, a culpa não é da minha pobre calça inventada de alta-costura, com listras horizontais, brancas e pretas, não é!!! De uma vez por todas, pessoal, deixem-me em paz com minha calça inventada de alta costura! Poxa...


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7. As listras brancas e negras

O mais estranho é que se eu decidir que a minha calça inventada de alta-costura será de listras horizontais, brancas e pretas, as pessoas irão associá-la às roupas dos presidiários, mesmo que eles não usem mais esse tipo de roupa. Listras brancas serviam para identificar os prisioneiros no escuro e as listras pretas para identificá-los nos ambientes claros. E eram horizontais para que não fossem confundidas com as grades da cela - verticais. Ora, mas eu não quero fugir, gente! Eu não quero ser identificada em ambiente algum, pessoal! Pelo contrário! Só queria andar em paz com minha calça inventada de alta-costura de listras horizontais, brancas e pretas, só isso...


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7. A calça de alta-costura

Esta calça de alta-costura, que inventei quando viajei pelas roupas, não sou livre para usá-la no meio da rua. Entretanto, aquelas mulheres andam com penas de pavão no carnaval e está tudo bem! As pessoas combinaram que no carnaval anda-se com penas de pavão. Mas, na rua, não se anda com calças de alta-costura. Eu não participei da convenção onde essas coisas foram acertadas sem que eu, também, desse o meu aval. O que leva essas pessoas, que eu nunca vi, esperarem de mim que eu não saia na rua com minha calça inventada de alta-costura? Que eu não saia pelada? Que eu não converse com as árvores? E tantos outros comportamentos? Hum, preciso pensar a respeito.


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6. O sal do oceano

Nessa poeira existe até o sal do oceano. O sal se evapora e é quase tão numeroso quanto as partículas de terra, não é impressionante? Eu estava quase concluindo que nem precisaria mais viajar, que havia de tudo naquele quarto, até partículas de oceano havia, vejam só. Contei a minha mãe e ela me sugeriu um aspirador de pó, disse que estava na hora de limpar a bagunça. Ah... minha mãe não compreende a magnitude do caos! Até seu coração bate caoticamente, mãe! A mancha vermelha de Jupiter, mãe! Mas a minha mãe não parece acreditar que Jupiter tenha alguma coisa a ver com um pé de meia jogado no chão. Mas eu defendo que sim! A moça da limpeza vem e arruma tudo. O que acontece? O que acontece? Você não acha mais nada. E por quê? E por quê? Porque a natureza caótica do seu quarto foi alterada! A poeira de Mar. Céus! O que aconteceu com a sua poeira importada de Marte!? Essa não! A moça levou tudo numa flanela molhada. Droga.


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5. A casa dos gigantes

Pensei outra coisa agora. Se há mais pó do que seres humanos; se seres humanos não entram pela janela como fazem as poeiras, escondendo-se aos bilhões embaixo dos móveis; se talvez nós, seres humanos, sejamos o pó na casa de gigantes, gigantes tão grandes (err...) que não conseguimos enxergá-los, se somos seis bilhões no planeta, então os gigantes não são tão numerosos assim, devem ser apenas um ou dois solitários perdidos pelo universo. Talvez seja esse gigante que as pessoas chamam de Deus. Calma, eu chegarei à Europa. É que a jornada de uma poeira, como eu, até o estrangeiro, demora muito. Afe...


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4. Uma hipótese

Há sempre mais pó dentro de uma casa do que fora dela e, todo ano, a massa da Terra é aumentada em milhares de tonelada por conta do pó extraterrestre. Agora, pensei outra coisa (às vezes, isso é um grande problema): há muito mais pó do que seres humanos, pois nunca vi gente entrando pela janela desse jeito. Poeira que se esconde embaixo dos móveis e cantinhos secretos. Parece que a poeira quer morar! Insiste, sem trégua, um lugarzinho no meu quarto! Bem, duvido que a  poeira de Marte, no canto do monitor, tenha me visto com aquela roupa ridícula. Ou, talvez, ela esteja viajando também, com uma roupinha esdrúxula, naquilo que ela pensa ser o quartinho dela, né? Então... "- Olá, poeirinha!"


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3. A viagem nas roupas

Bem, da viagem nas roupas, descobri que uma jaqueta de frio serve muito bem como calça inusitada, especialmente para quem tiver as pernas finas. Instrução 1: enfie os cambitos no lugar das mangas. Instrução 2: abotoe o fecho-ecler. Veja, não sei por que você faria isso, talvez você precise algum dia, não sei. Aliás, ficou uma bela calça de alta-costura. Os costureiros famosos devem passar o dia inteiro vestidos assim: a blusa no lugar da calça, a cueca no lugar da touca e assim por diante, para inventarem tantas roupas esdrúxulas como aquelas que eu vejo na Fashion TV.  Talvez, eu seja uma poeira, uma poeirinha assim, vestida de alta-costura, na casa dos gigantes. Gigantes tão grandes (err..) que eu não consigo sequer enxergá-los.

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2. A poeira do monitor

As pessoas dizem as coisas e essas coisas passam a existir, assim como Deus fez com o mundo. Bem, eu não acredito muito nessa história e, provavelmente, nem Deus acredite nas minhas. Tudo bem. Acontece que, agora, depois de me lembrar do artigo de John Ferguson, fico pensando que a poeirinha, na quina do monitor, deve ser de Marte e a outra, em cima do livro, deve ser de Saturno. Costuma-se trazer das viagens lembrancinhas para os amigos. Eu poderia dar de presente umas poeiras importadas de Marte e outras de Saturno, né? Bastaria eu passar uma flanela molhada. Ninguém nunca me deu uma flanela molhada de presente, que estranho...

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1. A Viagem

Então, cismei que precisava viajar, pois tinha vindo ao mundo em excursão e estava perdendo a viagem. Mas não poderia ser qualquer viagem: pegar um avião e descer em país estrangeiro. Não. Antes, eu começaria por viajar dentro da roupa, vestindo a camisa do avesso e de trás para frente. Depois, ficaria uma semana viajando no quarto, descobrindo fendas e esconderijos. Entrei no guarda-roupa e fiquei ali, como às vezes faz o Gatildo, meu gato. Acabei me dando conta de que não estava sozinha, que éramos cupins, traças, poeiras e ácaros, todos juntos, ali dentro. Gritei assim: As viagens de Gulliveeeeer. E minha mãe entrou. Isso não foi muito bom porque já tem aquilo da psicóloga atestar o meu desajuste. Depois, gritar dentro do guarda-roupa fechado, só você ali dentro, isso não é bom. Ah, mas querer descobrir um novo ponto-de-vista não é coisa de doido, é? Acho que não. Certa vez, li num artigo de John Ferguson que um ambiente fechado tem mais poeira do que ao ar livre e que, na casa das pessoas, há poeira de todos os locais do planeta, inclusive poeira extraterrestre! Logo, ficar escondida no guarda-roupa seria começar uma viagem interplanetária!

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Textos e fotos: Rita Apoena Ilustração do topo: Liniers
Desenhos: Jay e Pablo
Música: Amiina










Rita Apoena divide o quarto com uma lagartixa chamada Judith. Judith sempre volta para ouvir mais um trecho do seu livro. "Se o pessoal tiver o mesmo gosto da lagartixa, o meu livro vai ser um sucesso!" ela pensa animada.



Ilford FP4 e Fuji Provalue.

Uma pena voou
Uma pena pousou
Caminho de penas
Um chinelo ficou
Uma pedra caiu
Uma chave sumiu
Um feixe invadiu
Um amigo se foi
Girassol I
Alguns morrem
Outros brotam
Girassol II
O chão amparou
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro




câmera compacta

muro
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namoro dos benjamins
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