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Jornal das Pequenas Coisas
O algodão-doce
 Ilustração de Carlos
Evangelista, querido, querido,
querido!
Quando eu era pequenina e espiava o mundo pelas grades do
portão, via sempre um véinho passando, gritando: Ói algodão! Um dia,
resolvi sair e pegar a fila das crianças. Fiquei esperando o véinho transformar
açúcar em nuvens, açúcar em mágica, em pedaços de carinho. Quando ficou pronto,
mal podia acreditar! Peguei o algodão nos dedos e perna-pra-te-catar!
Lá
de longe, o véinho gritou: Ô Ritinha, mas e o dinheeeeeeiro, Ritinha?
Eu virei e respondi: Não, vô! Num picisa de dinheiro, não! Só o algodão-doce
já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão! O véinho deu risada e logo
respondeu: É mesmo, né Ritinha? Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o
algodão-doce tá bão! :)
Rita Apoena |
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O caramujo e a poça d'água
Ele achava bem difícil, era quase saltar de um abismo! Chegava pertinho da poça, mas voltava pro esconderijo. Seus amigos não entendiam por que ele se sentia assim. Nunca viram caramujo com esse medo d'água fria! Mas o caramujo temia e toda hora imaginava que de dentro da poça pulavam jacarés e crocodilos! Os colegas diziam: "Ô Mujinho, o qué qué isso! Óia lá se tem cabimento um jacaré morar ali dentro?! E ainda ficar pulando?! Será uma Cuca com Saci-Pererê?" E foi tanta gargalhada que Mujinho decidiu: ele ia atravessar a água sem esse mas-nem-porquê. E quando abriu os olhinhos, esperando o crocodilo, viu que a água era doce e o caminho, tranquilo. Não tinha bicho e nem monstro! Tinha só um caramujinho, refletido lá dentro...
Rita Apoena |
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Bota modernista é inaugurada na calçada
 Foto: Rita Apoena
Agora, todas as formigas que atravessam a Calçada Limeira, podem visitar as Botas Gêmeas, na antiga Via das Flores. O projeto, de arquitetura moderna, chama atenção por suas linhas sinuosas e pelo arrojado teto solar. (Lembramos que, neste caso, solar não deriva de Sol, mas de sola de sapato). Para a inauguração de hoje, a convidada de honra é a soprano Ana Cigarra. Os leitores do JPC podem retirar ingressos com 1h de antecedência. A entrada é franca (para quem conseguir entrar).
Rita Apoena |
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Benjamins começam a
namorar
 Foto: Rita
Apoena
Depois de tanto sufoco e timidez, finalmente se
encontraram, no laguinho da pia. Ela, um pouco envergonhada de suas sardas
e pintas e ele, como dizem, mais vermelho do que um pimentão, sem
saber como lhe pedir um benjinho. Tinham tanto, tanto! a dizer que
não achavam palavras. Então, ficaram em silêncio, olhando-se pelos
reflexos, um sorvendo a presença do outro.
Rita Apoena |
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Lápis não aprova o novo corte de cabelo
 Foto e maquiagem: Rita Apoena
Fábio Castel, um dos convocados para a prestação do Serviço Militar, saiu do apontador muito desapontado, quer dizer, apontado, não! não! quer dizer, desapontado, ao perceber o seu novo corte de cabelo. O corte em estilo reco, obrigatório para os soldados do 17º Batalhão do Estojo, não agradou em nada o novo soldado, que muito se orgulhava das suas longas madeiras. "Olhem só para mim. O que foi que fizeram no meu cabelinho? Agora, toda vez em que eu me olho no espelho, tomo um susto com esse corte moicano. Por um instante, eu chego a pensar: mas quem é esse punk aí do outro lado?", contou Fábio, muito emocionado, ao Jornal das Pequenas Coisas. Psicólogos endossam as críticas, dizendo que o novo corte de cabelo pode afetar a auto-estima dos lápis.
Rita Apoena |
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Vovó salva formigas no intervalo comercial
 Foto: Rita Apoena
Na manhã
de domingo, Dona Epifânia, uma senhora de 73 anos, perdeu a chave do seu
porãozinho. Esfregou a testa. Chacoalhou a cabeça. Mas, tal qual um fio com mau
contato, nada do que fizesse parecia ajudar a sua combalida memória. Na mesma
parede, dezenas de formigas estavam separadas pelas catástrofes dos últimos
instantes: uma porta que, num rangido estrondoso, abrira-se numa fenda de mais
de 7 cm da escala Ritcher. Dona Epifânia, sem esperança de encontrar a chave, vê
um cadarço jogado e une porta e batente. As formigas, mesmo feridas, atravessam
a ponte de pano, na maior mobilização já vista. Em todos os formigueiros, a
operação resgate foi transmitida ao vivo. Algumas formigas ajustavam as antenas
para eliminar os chuviscos da imagem. Por fim, Dona Epifânia, sem saber de nada
que acontecia no reino das formigas, afundou-se no sofá para assistir ao jornal.
Das notícias grandes, é claro.
Rita Apoena |
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Passeata de botões reivindica casa própria
 Foto: Rita
Apoena
No último domingo, botões invadiram o tecido de Rita Apoena, reivindicando
casa própria. Ao saberem que a latifundiária abriria cinco casas em sua nova
blusa, os botões concentraram-se em frente a sua caixinha de costura, exigindo
mais casas. O presidente do sindicato subiu na máquina de costura e discursou
para a categoria. A latifundiária tentou justificar a sua escolha, dizendo que
não havia espaço para outras casas, pois era uma blusa e não um vestido. Mas a
justificativa irritou ainda mais os botões. Eles percorreram as costas da blusa,
as mangas, os punhos e golas em passeata, acusando a proprietária de esconder o
tecido e sonegar impostos. Por fim, Rita Apoena cedeu e resolveu abrir casas
para todos os botões, independente do tamanho ou da cor. Pregou botão nas
costas, na gola, nas mangas, no punho. O conflito só terminou quando Rita
aceitou levar todos os botões para pular o carnaval, com sua blusa tão alegrinha
(sic).
Rita Apoena |
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Presos no fio, calçados brincar de balançar
 Foto: Rita
Apoena
Certo dia, dentro de uma caixa escura, sentiram
muito medo e prometeram que ficariam sempre juntos, para cuidar um do outro.
Desde então, nunca mais deixaram de ser amigos. Nunca mais se separaram. Andaram
por ruas e ruas, cidades e montanhas; conheceram a textura das pedras, das poças
e folhas. Juntos enfrentaram tudo (até o cocô do cãozinho) e brincaram de roda
na máquina de lavar...
Quanto mais velhos ficavam, mais conheciam os
remendos do outro. E quanto mais conheciam, mais se soltavam. Soltaram a
palmilha, o bico e a sola. Abriram fendas para entrar a água da chuva. Até que
voaram, voaram tão alto... Presos no fio, de cadarços dados, brincavam de
balanço. Rodavam lentos, um de cada vez, sem acreditar nas belezas do mundo. As
belezas que só agora, como sapatos do vento, conseguiam enxergar.
Rita Apoena |
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Taturana aproveita o feriado no Bungee Jump
 Foto: Rita Apoena
Uuuuuuuuuu era o que se ouvia por todo o jardim. Enquanto caranguejos e siris aproveitavam o feriadão na praia, TaturAna Paula saltava de Bungee Jump no quintal de Rita Apoena. A princípio, todos ficaram surpresos. É que TaturAna Paula andava tristinha. Fora chamada de "bicha cabeluda" por seu paquera e ficara muito amuada no tronco da árvore. Não entendia por que feria tanto as pessoas que tentavam se aproximar. E chegou a pensar que alguém com tantos pés no chão, não seria nunca capaz de voar. Mas foi quando o sol iluminou, não só a folha da palmeira, como as idéias de TaturAna Paula. Ela correu e se abraçou na folha o mais que pôde, com todos os seus braços e pezinhos. A folha não se afastou. De longe, enquanto adubava a terra, Rita Apoena ouviu a alegria de uma taturana que, por alguns minutos, aprendeu a voar.
Rita Apoena |
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