Metáforas


Acerca del Viaje


Ilustração de Pablo Gamba, querido, querido, querido! 

Donde quiera que el ómnibus me lleve
el sol acompaña mi rostro a través de la ventana
como un barrilete!
amarrado por la esperanza.


                  





Sobre o aborto

E naquele dia,
o seu filho nasceu para dentro.
E quanto mais o tempo passava,
mais o menino crescia:
esbarrando no seu coração.


                  





Sobre o sono

O sono chega
quando a noite tenta
pendurar-se em minhas pálpebras
amarrando estrelas
- uma a uma -
em cada cílio.


                  





Sobre o arrepio

O arrepio é quando,
por serem tão leves,
seus dedos conseguem,
em cada um dos meus poros:
soerguer uma flor.


                  





Sobre os poetas

O mágico nunca conta os seus segredos.
O poeta nunca explica uma entrelinha.


                  





Segredos

Meu vestido é cheio de segredos.
A cada botão que você abre,
sinto uma rosa desabrochar.


                  





Quimeras

Quando ficar triste,
achando tudo mentira,
verá sonhos invertidos:
como imagens no espelho
mostrando por antônimos
o que o outro queria ter sido.

Não brigue: a verdade mais frágil
saberá dele.


                  





Tremores

Deito-me ao teu lado e meus dedos se desmoronam. Já não têm onde morar, esconsos e sozinhos, no cós da tua calça. Sinto o tremor do teu corpo, o zíper abrindo fendas num terremoto. O mundo se agita. A calça se parte. Minhas mãos são agora como fios de água sugados pela fenda na terra e entram pelos tecidos de poliamida e algodão. Minha boca te esconde em porões à prova de sismo: o teu corpo treme, as ondas se espalham. Pobre homem, não te assusta... a minha saliva te queima, mas minha língua te acalma: a minha boca é só um vulcão ao contrário. Toma essas pétalas escondidas no bojo dos meus seios: eu só queria que o teu mundo fosse tenro. E fosse calmo.


                  





Mariana

lambeu as lágrimas que escorriam,
manchando a língua de tristezas.
Quando o vazio é muito grande,
as lágrimas são transparentes.


                  





Sobre os livros

Era uma vez um leitor, curioso sobre a história dentro de um livro. Era uma vez um livro, curioso sobre os olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Mas porque alguém tinha de dar o braço a torcer, o livro rendeu-se e começou o primeiro capítulo. Os livros sempre se rendem: não é a toa que eles capitulam.


                  





Sobre a reciclagem

Eu sou contra a pena de lixo. Sou a favor da reciclagem. Afinal, o lixo também merece uma segunda chance.


                  





Aula de piano

Eu espero a aula começar, meu pai no saguão, lendo o jornal. Levanto a tampa e o piano sorri, branco e vago, implorando algum som. Mas eu não sei lhe tocar, disseram meus dedos. E o piano estrondo, rancoroso da última vez que o professor deixou de tocá-lo para me. Meus dedos trêmulos tentando fá alcançar enquanto seus dedos por baixo de minha saia, tentando lá, sustenido, faz quase Sol e a partitura dizendo-lhe pausa de oito tempos! Pausa de oito tempos! Deixe-me respirar! Mas o professor desamarrando as cinco linhas do pentagrama e as amarrando em minhas mãos. Quando não pude mais, seus lábios toquei, sobre as oitavas, eu. Já reparou como o orgasmo é, silenciosamente, agudo? Implodi. Suaves estilhaços. As colcheias têm pontas. Há música dentro de mim fá sol. Meus dedos agarrados às teclas do piano. Seus dedos agarrados aos meus. Sim, meu pai, hoje tocamos a quatro mãos.


                  





Sobre o amor

Quem não compreende o silêncio
ainda não está pronto
para ser flor.


                  





Sobre as árvores

A árvore é o chão erguendo frutas ao alcance dos passarinhos. Exceto quando fazem sombra, nunca podem se deitar: sua função é equilibrar ninhos.


                  





Sobre eles

Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.


                  





Informe meteorológico

São os passarinhos bicando as nuvens
até derramarem a chuva por cima de nós.


                  





Sobre o sono

Meu sono é um crânio escuro, onde mora um homenzinho alado. Às seis da manhã, ele levanta as minhas pálpebras, assim como eu, na esperança do amanhecer, também levanto as janelas do quarto.


                  





Rolimã

Esta ladeira foi um abismo que se deitou
para que o menino pudesse brincar.


                  





Sobre o ninar

A gente dorme de olhos fechados
que é para poder sonhar por dentro, amor.


                  





Sobre a poeira

Mas a poeira  é só a vontade
que o chão tem de voar.


                  





Sobre as despedidas

Os cílios agarraram-se às pálpebras quando tentei fechar meus olhos. Mas você assoprou e todos voaram. De novo nasceram e de novo voaram. Não faça mais isso! Quem vai cortar a lágrima em fatias no dia em que você for embora?


                  





Sobre o regador

O regador é só uma mentira de chuva
que eu tenho de contar às flores,
todas as manhãs.


                  





Sobre a solidão

e só essa multidão que esbarra e esbarra em meus ombros
em alguns anos, terei os ombros esculpidos
pela solidão.


                  





Sobre a raiva

no calor do fogo é que se molda o vidro
e quando a peça esfria
vê-se um pote fundo
de tristezas.


                  





Sobre o olhar

Eu queria que seus olhos caíssem
                           no buraco negro
                                     dos meus


                  





Sobre vestidos de algodão

— Não... não te preocupa, vestido!
Amanhã, quando o sol quente voltar ao céu
e todas as nuvens te quiserem de volta,
os dois pregadores, no varal, vão te salvar...


                  





Sobre a escala Richter

Os tremores da terra
são apenas as flores nascendo.


                  





Sobre os poetas

Então, quando você me beijar,
vai sentir o gosto da minha escrita,
pois a fim de nunca esquecê-las
eu trago todas as minhas palavras
na ponta da língua.


                  





Sobre o agora

Vivo tão intensamente o momento presente
que quase chego atrasada ao momento seguinte.


                  





Sobre a estiagem

E o arco-íris, que estava frouxo, deitado em algum chão desse mundo, esticou-se em arco no céu. Afinando, o Sol deu o tom.


                  





Sobre a viagem

E apesar de toda a velocidade,
o sol acompanha o meu rosto através da janela,
feito uma pipa alta, amarrada pela esperança.


                  





Diálogo

— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida.


                  





Sobre o perdão

Essa casquinha fez uma ponte sobre a ferida porque
feridas abertas são como abismos por dentro.


                  





Sobre o desprezo

Mas tem dias em que ele me abraça um abraço empalhado.
Um espantalho que abriu os braços apenas para espantar os corvos.


                  





Sobre as estrelas

Deitada na grama, o céu empoeirado de estrelas. Passei o dedo e - curioso - algumas vieram grudadas na ponta. Olhei para cima e assoprei. Foi tanta estrela caindo que agora eu mal consigo enxergar de tanta esperança.


                  





Sobre a separação II

Quando você vai embora de nós
o pronome parte-se ao meio
você diz que só leva o s
e o que adianta?
se comigo sobra o nó
na garganta.


                  





Sobre a separação

Este quarto ficou grande demais. E eu queria um quarto onde só coubesse o meu corpo, uma casca de concreto ao redor de mim. Eu não queria muita coisa. Eu só queria que as paredes me abraçassem.


                  





Sobre a despedida

Mas o amor ainda quente no peito
fazia as lágrimas grudarem no rosto
feito gotas de vela:
endurecidas.


                  





Sobre as borboloetas paralíticas

Sim, eu sei. Pode parecer maluquice, mas eu vou mesmo desparafusá-las e arremessá-las no jardim. Mesmo que não possam voar, ficarão entre as flores, o devido lugar das borboletas paralíticas. Não suporto mais essa idéia de abrir a janela, levantar os vidros e vê-las ali: disfarçadas de dobradiças.


                  





Sobre o shopping center

Olhar a manequim de uma loja é deparar-se com o silêncio triste de uma boneca que cresceu. E que, agora, só queria inverter a brincadeira e vestir em você aquele monte de roupinhas.


                  





Sobre o murchar

Murchar é chorar ao avesso,
um choro seco
puxando lágrimas
para dentro dos olhos,
uma outra vez.


                  





Arrepio

Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pêlos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.


                  





Sobre os postes

Quando voltar do trabalho, olhe para cima e repare:
no meio dos prédios, altos, frios e cinzentos
todos os postes de luz, com seus fios
adormecem de mãos dadas.


                  





Homem de lata

Encosto o meu dedo em sua pele, mas ela não afunda. Não é possível. Desabotôo a sua camisa e deito a minha cabeça em seu peito, meu homem de lata. Diante do novo segredo, eu queria chorar, mas posso enferrujá-lo. Então, como viveria em paz sem a sua armadura? Sem nada entender, você se vira e vai embora. E só então eu percebo: a sua armadura é furada, meu amor. Nas centenas de furos sobre a lata, vai aguando todas as plantinhas ao seu redor. Você é, na verdade, um lindo homem regador.


                  





Sobre a dança II

A dança não é nos braços ou nas pernas; sequer em qualquer movimento. A dança é isso aqui dentro, uma moça tímida que passa os seus dias trancada, até pensar que os tambores da música são apenas os seus amigos... batendo na porta.


                  





Sobre a insônia

Talvez, uma noite de insônia seja a vontade do dia em frustrar todas as expectativas que lhe impuseram durante bilhões de anos: amanhecer. Mas nós não acreditamos, nós achamos que não dormimos ou que perdemos o sono, quando foi o sono que nos perdeu. Se eu não durmo, a noite não sonha.


                  





Sobre o abraço

Abraçar
é encostar um coração no outro.


                  





Sobre a dança I

Dançar
é acariciar o vazio.


                  





Sobre a música

A música foi a grande decisão do homem
de abraçar o invisível.


                  





Sobre as respostas

Algumas frases têm o poder da folha em branco. Se alguma delas acertar você, abandone as suas respostas: é inútil escrever de branco sobre folhas brancas. Minha caneta transparente estourando frases dentro da bolsa. Foi um grande silêncio.


                  





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Jornal das Pequenas Coisas



Diário Bobo de Viagem



O Casamento de Dona Lulu


O amor nos pequenos gestos




Comunidade Rita Apoena
Comunidade do Jornal
Comunidade Rita Apoena II



Textos e fotos: Rita Apoena Ilustração do topo: Liniers
Desenhos: Jay e Pablo
Música: Amiina






Rita Apoena divide o quarto com uma lagartixa chamada Judith. Judith sempre volta para ouvir mais um trecho do seu livro. "Se o pessoal tiver o mesmo gosto da lagartixa, o meu livro vai ser um sucesso!" ela pensa animada.





Após receber os carinhosos e-mails e comentários, Rita Apoena veste sua touca ninja e responde telepaticamente. Por conta do sistema ultra rápido, ela tem mais tempo para escrever os livros. Se ainda não recebeu resposta, ajuste um pedaço de bombril na ponta da sua antena para melhorar a transmissão.




Ilford FP4 e Fuji Provalue.

Uma pena voou
Uma pena pousou
Caminho de penas
Um chinelo ficou
Uma pedra caiu
Uma chave sumiu
Um feixe invadiu
Um amigo se foi
Girassol I
Alguns morrem
Outros brotam
Girassol II
O chão amparou
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro
Circo Picadeiro




câmera compacta

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agasalho
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esperança
namoro dos benjamins
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