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sobre o tempo
Procuro uma câmera que fotografe o iminente, e a memória revele as imagens, pendurando-as na linha do tempo, para secar.
Escrito por Rita Apoena |
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da partida
No início da longa estrada, uma placa de trânsito pedindo aos transeuntes: favor reduzir a estatura à medida em que se aproximar do horizonte.
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 Ilustração de Pablo Gamba, querido, querido, querido!
Donde quiera que el ómnibus me lleve el sol acompaña mi rostro a través de la ventana como un barrilete! amarrado por la esperanza.
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Sobre o aborto
E naquele dia, o seu filho nasceu para dentro. E quanto mais o tempo passava, mais o menino crescia: esbarrando no seu coração.
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O sono chega quando a noite tenta pendurar-se em minhas
pálpebras amarrando estrelas - uma a uma - em cada cílio.
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O arrepio é quando, por serem tão leves, seus
dedos conseguem, em cada um dos meus poros: soerguer uma
flor.
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O mágico nunca conta os seus segredos. O poeta nunca explica uma entrelinha.
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Meu vestido é cheio de segredos. A cada botão que você abre, sinto uma rosa desabrochar.
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lambeu as lágrimas que escorriam, manchando a
língua de tristezas. Quando o vazio é muito grande, as lágrimas são
transparentes.
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Era uma vez um leitor, curioso sobre a história dentro de um livro. Era uma vez um livro, curioso sobre os olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Mas porque alguém tinha de dar o braço a torcer, o livro rendeu-se e começou o primeiro capítulo. Os livros sempre se rendem: não é a toa que eles capitulam.
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Eu sou contra a pena de lixo. Sou a favor da reciclagem. Afinal, o lixo também merece uma segunda chance.
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sobre o amor
Quem não compreende o silêncio ainda não está pronto para ser flor.
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A árvore é o chão erguendo frutas ao alcance dos passarinhos. Exceto quando fazem sombra, nunca podem se deitar: sua função é equilibrar ninhos.
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Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.
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São os passarinhos bicando as nuvens até derramarem a chuva por cima de nós.
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Meu sono é um crânio escuro, onde mora um homenzinho alado. Às seis da manhã, ele levanta as minhas pálpebras, assim como eu, na esperança do amanhecer, também levanto as janelas do quarto.
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Esta ladeira foi um abismo que se deitou para que o menino pudesse brincar.
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A gente dorme de olhos fechados que é para poder
sonhar por dentro, amor.
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Mas a poeira é só a vontade que o chão tem
de voar.
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Os cílios agarraram-se às pálpebras quando tentei
fechar meus olhos. Mas você assoprou e todos voaram. De novo nasceram e de novo
voaram. Não faça mais isso! Quem vai cortar a lágrima em fatias no dia em que
você for embora?
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O regador é só uma mentira de chuva que eu tenho de contar às flores, todas as manhãs.
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grandes centros
e só essa multidão que esbarra e esbarra em meus ombros em alguns anos, terei os ombros esculpidos pela solidão.
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sobre a raiva
no calor do fogo é que se molda o vidro e quando a peça esfria vê-se um pote fundo de tristezas.
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Eu queria que seus olhos caíssem no buraco negro dos meus
Escrito por Rita Apoena |
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— Não... não te preocupa, vestido! Amanhã, quando
o sol quente voltar ao céu e todas as nuvens te quiserem de volta, os
dois pregadores, no varal, vão te salvar...
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